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Inspiração com duas décadas para a União de Leiria replicar

Em 1997/98, um plantel de luxo, com um treinador histórico, levaram o clube de regresso à 1.ª Liga. Um dos prémios de subida ainda está hoje por levantar.

Miguel Sampaio Miguel Sampaio
24 de Maio de 2018
em Desporto
Inspiração com duas décadas para a União de Leiria replicar
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O próximo domingo tem tudo para ser de festa na cidade. A União de Leiria está a 90 minutos de garantir a subida à 2.ª Liga de futebol e, assim, regressar às competições profissionais, de onde foi empurrada no final de 2011/12.

Curiosamente, em Maio de 1998, há precisamente duas décadas, a União de Leiria também festejou. Comemorou então o regresso ao convívio dos grandes da penúltima jornada do campeonato, na recepção ao Penafiel (2-1).

Foi a crónica de uma subida anunciada, tal a superioridade perante os rivais. Ainda assim, cheia de peripécias. O clube entrou para a temporada 1997/98 com a firme disposição de responder à desilusão enorme sofrida na temporada anterior, em que se viu despromovida à 2.ª Liga.

O então líder, João Bartolomeu, acompanhado pelo presidente da Assembleia Geral, Artur Meneses, engendraram um plano para colocar novamente o clube da cidade do convívio dos grandes. E não falharam.

À cabeça estava o treinador, Vítor Oliveira, que já tinha duas subidas à 1.ª Liga no palmarés, e que orientava um grupo de jogadores dignos de outros patamares, com destaque para a segurança de Bilro, Sérgio Nunes, Jorge Silva, o talento puro dos ganeses Mark Edusei e Emmanuel Duah, e o pontapé-canhão de Dinda.

“Tínhamos de facto o melhor plantel, um grande homem a dirigir-nos e tudo apontava para uma grande época. Acontece que no futebol nem sempre o que parece é e começámos mesmo mal”, recorda Reinaldo, ponta-de-lança que marcou 11 golos nessa campanha.

De facto, a temporada arrancou com cinco empates e todos ficaram nervosos. “Começaram a surgir dúvidas e já era tudo posto em causa. À boa maneira portuguesa, o projecto só demora uma semana no futebol”, diz o avançado. “O ambiente estava pesado”, completa João Armando. Havia reuniões com João Bartolomeu, que decidiu tomar medidas.

“Acabou com os prémios de jogo por empate”, revive o central, autor do golo que acabou por mudar o curso da história, aos 89 minutos da recepção ao Académico de Viseu, encontro da sexta jornada.

“Com o piton empurrei a bola que estava em cima da linha de golo. Foi um alívio para todos nós. A partir daí embalámos para uma época maravilhosa.” Nesse mesmo ano, chegaria às meias-finais da Taça de Portugal e só caiu no prolongamento, frente ao FC Porto (2-3).

Ainda assim, com o atraso com que partiu, a União de Leiria só chegaria à liderança à 27.ª jornada, após vitória sobre o União da Madeira. “Tínhamos um grande treinador. Vítor Oliveira tinha as linhas traçadas, e manteve o rumo. Nunca cedeu a nada nem a ninguém e o resultado foi o que sabemos”, explica Reinaldo.

O plantel da União de Leiria era “fortíssimo” e o clube, apoiado em Bartolomeu e Meneses, que mais tarde se tornariam desavindos, tinha uma capacidade financeira pouco habitual para o segundo escalão, como evidencia Túbia, mais um craque dessa equipa.

“Quando amigos adversários com quem falava sabiam dos nossos prémios de jogo diziam: 'eh pá, os vossos prémios são maiores do que os nossos salários!' Eu respondia: 'então é melhor nem pensarem em empatar, porque o futebol é para equipas com massa.' Na véspera do jogo seguinte pagavam tudinho.”

Pontapé-canhão

Enquanto deambulava pelo meio-campo, Túbia aguardava um pequeno toque dos adversários para “cavar” algumas faltas. “Claro, tínhamos de aproveitar um ponto forte de um elemento nosso!” O local não era propriamente importante, porque quem tinha o pontapé-canhão de Dinda podia marcar golo de qualquer sítio.

Nessa época foram 11. No topo sul, os Ultra Fantasmas antecipavam a festa e, compassadamente, gritavam pelo jogador brasileiro. “Cada livre era golo na certa. Tinha muita qualidade, rematava com a parte exterior do pé, com muita potência e dava uma curva incrível à bola”, explica o angolano.

Ainda júnior, o guarda-redes Vasco Évora dava os primeiros passos com o plantel sénior e sofria a bem sofrer com as bombas de Dinda. Estivesse frio ou calor, saía dos treinos sempre com as mãos a escaldar.

“Era muito difícil, pois a bola mudava muito de trajectória devido à força com que ele chutava. Normalmente, quando acertava na baliza, ou era golo ou dava recarga. Era  [LER_MAIS] conhecido por rematar de qualquer lado. Lembro-me de vê-lo marcar livres directos mais próximos da linha do meio-campo do que da grande área do adversário”, diz o agora treinador.

Prémio de subida

Luís Bilro era o capitão. “Fizemos uma campanha fabulosa e batemos alguns recordes. O grupo era de facto muito bom e o treinador especial. Soube analisar os jogadores que tinha à disposição e estudar bem os adversários”, sublinha. Vítor Oliveira apresentava ideias inovadoras. “Era engraçado, dizia-lhe que trazia jogos didácticos para os treinos, coisas simples que na altura não se faziam. Também gostava de fazer os banhos de imersão connosco. Esperava que a confusão passasse e ajudava a criar um ambiente tranquilo.”

Sérgio Nunes, um dos centrais em destaque, justifica o sucesso não só com o talento, mas com a união. “Vivíamos como uma família. Toda a gente se dava bem e partilhava grandes momentos. Fazíamos festa quase todos os dias e lembro-me de o falecido Ferreira, por ser de Leiria, estar brutalmente entusiasmado com a subida.”

Da sua parelha “cúmplice” com Jorge Silva só tem a dizer bem. “Vibrávamos muito com os feitos um do outro”, recordando ainda o facto de João Bartolomeu ser um presidente “muito presente”, que “queria muito ganhar”. Por falar em Bartolomeu, Túbia não esquece um pormenor. “Cumprimentava só com o mindinho. Era incrível. Fartava-me de rir com aquilo.”

Talvez não tenha tido tanta vontade de rir com um dos prémios de subida. “Um dos patrocinadores tinha uma empresa de pedra e ofereceu uma campa a todos os jogadores. Foi uma promessa que fez, mas acho que ninguém a levantou”, conta Sérgio Nunes.

Tópicos: 2.ªligafutebolUDLuniaodeleiria
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