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Home Viver

“Leiria tem muitos projectos novos que gostaria de promover”

João Brilhante, promotor musical

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
22 de Janeiro de 2016
em Viver
“Leiria tem muitos projectos novos que gostaria de promover”
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Como é que uma pessoa que foi para a universidade estudar Relações Internacionais, acaba como promotor musical?
Sempre estive muito ligado à cultura. Quando ainda vivia em Leiria comecei a fazer algumas coisas na área. Em 1993, produzi um concerto dos Tédio Boys, de Paulo Furtado, em Monte Redondo. Custou 90 contos. Tive de convencer o meu primo Mário, que tinha um bar, o Stradivarius, na vila. Ele costumava ter lá bandas decoverse desafiei-o a fazer noites alternativas às sextas-feiras. Comecei a passar música como dj e, quando gente de Leiria começou a ir ao bar de propósito para aquelas noites sugeri levarmos os Tédio Boys que estavam em alta. Fizemos esse concerto que correu muito bem e foi aí começou um bichinho que me ordenava que estivesse ligado à música. Entretanto, não me adaptei à universidade e ao curso. Estava sempre enfiado em concertos, exposições e na Cinemateca. Lisboa foi uma grande descoberta onde fiz uma formação cultural paralela à universidade. Em 1999, convidaram-me para escrever sobre cinema, sobre teatro, dança e fazer o roteiro cultural de Lisboa e nacional na Magazine 24. Trabalhei lá dez anos. Entretanto a empresa constitui-se como agência de comunicação até que tive um convite de uma produtora, a Mandrake, para ir trabalhar com eles em assessoria de imprensa.

Quem foi o primeiro artista com quem trabalhou, nessas funções?
Foi Charles Aznavour, uma grande estrela, uma espécie de Sinatra europeu. Toda a imprensa portuguesa queria falar com ele pois havia a dúvida se ele seria ainda o “Charles Aznavour dos tempos áureos”. À boa maneira de estrela, não queria dar muitas entrevistas e escolheu só dar três. Escolhemos o Público, o Expresso e a RTP. Foi interessante perceber ali o poder da comunicação. Tínhamos os bilhetes à venda e as vendas estavam a arrancar devagar e nós preocupados. Após a entrevista para a RTP,com a Judite de Sousa, que se deslocou propositadamente a Paris, foi incrível a venda de ingressos. As pessoas viram que o Charles Aznavour estava cheio de energia e em grande forma.

Durante esse tempo na Mandrake, qual foi o pedido mais curioso que um artista lhe fez?
Tenho vários casos. Quando se trabalha com artistas de grande dimensão, estamos sempre sujeitos a exigências e a condições. O Aznavour queria ouvir fado ao vivo e queria os melhores fadistas. Era preciso arranjar um evento e um sítio onde ele pudesse ir com o seu imenso staff. Contactámos uma casa de fados em Alfama, onde cantam alguns dos melhores fadistas nacionais e reunimos um grupo de luxo, que seria um fado all stars só para o senhor Aznavour. Era a Carminho, Ana Moura, Mafalda Arnauth e a Beatriz da Conceição. Também convidámos pessoas muito próximas do meio artístico, foi uma coisa muito, muito reservada. Um concerto privado a pedido. Foi único. A mãe da Carminho até fez um comentário dizendo que aquilo era uma verdadeira mise-en-scène. Realmente, não era normal estarem ali tantas estrelas do fado juntas.

Também trabalhou com Seu Jorge.
É uma pessoa incrível. Era de uma favela e tornou-se conhecido com o filme Cidade de Deus. Fala com toda a gente e é uma pessoa muito próxima e terra-a-terra. Como ele fez versões de canções do Bowie, perguntei-lhe se o gosto pelo cantor britânico era uma coisa antiga. “Eu? Eu nem conhecia o cara!” Trabalhei com o Seu Jorge duas vezes. Na segunda vez, foi um concerto express. Num mês resolvemos tê-lo a tocar em Portugal e tínhamos pouco tem queria dar entrevistas, nem faria showcases. À revelia, marcámos entrevistas e showcases. Quando ele chegasse, logo se via. Fomos buscá-lo ao aeroporto, às 14 horas. Às 16:30 horas, tínhamos marcado umshowcase na Fnac do Chiado, e às 18 horas, tínhamos a Prova Oral, do Alvim e uma entrevista com a TVI, de seguida. Quando chegou, vinha mal disposto por causa de uma confusão na alfândega. Ainda no carro, o nosso director aproveitou e disse-lhe: “Jorge, vamos precisar de um grande favor teu. Ainda temos a sala aquém da capacidade e precisamos da tua ajuda para promover o concerto”. Ele ficou meio desconfiado. “Ehhh! Vi logo que ia sobrar p'ra mim!”

E ajudou?
Ajudou. Fomos ao hotel e ele quis beber uma “cervejinha fresca”. Entretanto, pelas 15:30 horas, ligou-me uma amiga a dizer que havia um mar de gente na rua, no Chiado, à espera. Lá saímos do hotel, e ele deu o concerto. Quando acabou, dissemos-lhe que tinha de ir à RTP à Prova Oral. Não gostou. Estava a assinar autógrafos e nós a puxá-lo. “Eles que esperem. Vou ficar aqui até à última pessoa me pedir um autógrafo.” Chegámos atrasados ao programa do Alvim e o Seu Jorge ainda quis ir beber uma “fresquinha” antes. Quando chegou ao hotel, tinha lá a TVI à espera… Foi difícil, mas conseguimos e enchemos o Campo Pequeno. Até um pedido de casamento houve em palco.

Depois da área da promoção mudou de ramo profissional…
Fui trabalhar para publicidade. Convidaram-me da IPG Media Brands, uma das maiores agências de promoção de marcas do mundo. Tive umas dúvidas, mas aceitei. Estive a trabalhar na área três anos, mas deixei de trabalhar com cultura e com projectos de música. Ao fim desse tempo, comecei a pensar se era realmente aquilo que queria fazer… cheguei ao fim do ano passado e percebi que não. Voltei à música, e abri a minha agênciaunipessoal. Estou a trabalhar com um projecto do Porto, The Miami Flu, que vai lançar um disco em Fevereiro, têm uma sonoridade de surf rock, com garage e shoegaze.

Gostaria de promover novas bandas de Leiria?
Quando promovi o concerto de Tédio Boys com o meu primo, a actividade cultural leiriense era muito reduzida. Leiria está viva, recomenda-se e há muitos novos projectos que gostaria de promover. Estive a enumerar artistas grandes, mas também trabalho com projectos mais marginais. De Leiria, gosto imenso de Country Playground, de Born a Lion, de Nice Weather for Ducks, do Afonso [Sean Riley, Keep Razors Sharp] e por aí fora. Estaria super disponível para os divulgar. Leiria é um pouco como o Porto. Tem uma boa cena underground e também mainstream, com bons eventos culturais, como o Há Música na Cidade, o festival A Porta… a programação do José Lúcio da Silva…

Perfil
O homem que trata Seu Jorge por “Jorge”

Nasceu em 1973, no seio de uma família de Monte Redondo, no concelho de Leiria. João Brilhante mudou-se para a capital do distrito para fazer o ensino preparatório, cidade onde também fez o ensino secundário, na Secundária Francisco Rodrigues Lobo.

Quando chegou o tempo da universidade, em 1992, mudou-se para Lisboa para estudar Relações Internacionais. E ficou por lá. Trabalhou com a Nintendo Portugal e promoveu jogos como se fossem um artigo cultural, colaborou com o Goethe Institut e com a Meios e Publicidade.

Estudou e especializou-se em Marketing e redes sociais. Trabalhou na promotora Mandrake, conheceu Seu Jorge, Zélia Duncan, Simone, Ornette Coleman ou Charles Aznavour. No início do ano, abriu a sua própria promotora.

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Tópicos: entrevistajoaobrilhanteLeiriapromotor
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