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Home Crítica

Letras | Aquilino Ribeiro (1958), Quando os lobos uivam OU o silêncio do tempo

Cristina Nobre, professora do ensino superior Cristina Nobre, professora do ensino superior
8 de Maio de 2026
em Crítica
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Cristina Nobre, professora do ensino superior
Cristina Nobre, professora do ensino superior8 de Maio de 2026

Aquilino Gomes Ribeiro (AR) nasceu em 1885 e morreu em maio de 1963, com uma biografia agitada de inquieto homem em travessia de tempos conturbados e ideologias idiossincráticas. O seu nome está perto de entrar na cidade eterna do esquecimento se é que não se encontra já lá, desde que os programas oficiais de Português prescindiram da leitura do grande romance de 1957, A Casa Grande de Romarigães. A indicação serve apenas para reforçar a linha de fronteira entre os produtos literários de massas, que se tornam best-sellers, e os romances literários de qualidade, conscientes da sua forma e dos seus processos de linguagem, da sua inclusão numa tradição. Ou seja, uma literatura comercial (que se lê sem pensar, light e de entretenimento, capaz de gerar receita e permitir às editoras publicar outro tipo de livros…) e uma literatura ‘elitista’, complexa, estimulante para a maior parte da nossa vida, a que (tres)lemos numa tentativa de compreender o mundo à nossa volta, saber intervir e perceber como os outros sofrem e desejam, com compaixão.

Ativista político antimonárquico e anti ditadura portuguesa, AR – beirão e filho natural de padre – estudou no seminário de Beja, de onde foi expulso antes de ir para Lisboa. Acusado de ser anarquista, é preso, foge e, depois do regicídio, exila-se em Paris, onde estuda na Sorbonne, se casa (com a alemã Grete Tiedemann) e tem o primeiro filho. Em 1915, por causa da 1.ª Grande Guerra, regressa a Portugal e é professor no Liceu Camões, embora sem a licenciatura concluída. Em 1919 entra para a Biblioteca Nacional, a convite de Raul Proença, sendo um dos intelectuais do Grupo da Biblioteca. Em 1921 integra a direção da revista Seara Nova. Em 1927 entra na revolta anti ditadura de 7 de fevereiro, e exila-se de novo em Paris, regressando clandestinamente por morte da primeira mulher. É julgado à revelia em Tribunal Militar e condenado, seguindo para Paris e casando-se com Jerónima Guimarães (filha de Bernardino Machado). Em 1931 vai viver para a Galiza e só a partir de 1932 vive – clandestinamente – em Portugal, tendo militado na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. Em 1956 funda e preside à Sociedade Portuguesa de Escritores.

Quando os lobos uivam, de 1958, é dedicado a Francisco Pulido Valente, no ano em que AR é nomeado sócio efetivo da Academia de Ciências de Lisboa. O seu estilo é servido por uma caudalosa torrente lexicológica e por construções frásicas de raiz popular, cheias de regionalismos. Esta linguagem vernácula apresenta expressões ora grotescas ora satíricas nos diálogos, o que talvez constitua a maior barreira à sua leitura atual. Porém, o convívio com as gentes do campo, a educação dos sacerdotes, as conspirações políticas, fugas e exílios aí presentes continuam a fazer o leitor refletir sobre a vida política e social, passadas mais de 6 décadas sobre a sua morte. À volta das figuras de Teotónio e Manuel Louvadeus, pai e filho de torna-viagem emigrante na França, vive-se na serra dos Milhafres o confronto entre os populares e o projeto de florestação governamental da Serra da Estrela, numa elucidação complexa de que ‘o homem é o lobo do homem’ em sociedade, ainda quando a empatia podia fazer diferente:

[…] Caía a tarde. O engenheiro silvicultor deu uns passos hesitantes à direita e à esquerda. Não sabia de que benignidade haviam de revestir-se as razões contra aqueles homens perros e confinados na negativa. Sentia neles uma filáucia contida e, se não se curvava aos seus postulados, também não se julgava com direito a menoscabá-los. Perpassou-lhe pela vista o lenço vermelho de Jorgina, o seu belo riso e dignidade tão consciente […] (opus cit., p. 95)

Em 1960, Francisco Vieira de Almeida propõe-no para Nobel da Literatura, subscrito por Cardoso Pires, Mourão-Ferreira, Tavares Rodrigues, Gomes Ferreira, Mª Judite de Carvalho, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira e tantos outros. A censura procurou calar as várias homenagens depois da sua morte. Em 1982, a título póstumo, é agraciado como Comendador da Ordem da Liberdade. Em 2007, a Assembleia da República concede aos restos mortais honra de Panteão Nacional. Em 2008, Quando os lobos uivam foi adaptado ao cinema numa produção da RTP.

Porém, AR permanece um desconhecido silencioso no nosso país e na nossa cultura…

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