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Home Crítica

Letras | Isabel Rio Novo (2020) Rua de Paris em dia de chuva, OU as invenções espácio-temporais…

Já escrevi sobre Isabel Rio Novo e o romance Rio do Esquecimento, de 2016, que apreciei na elegância de uma escrita espessa

Cristina Nobre, professora do ensino superior Cristina Nobre, professora do ensino superior
14 de Agosto de 2021
em Crítica
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Cristina Nobre, professora do ensino superior
Cristina Nobre, professora do ensino superior14 de Agosto de 2021

Cheguei, assim, à leitura deste novo romance de 2020, escrito ao abrigo de uma bolsa de criação literária da DGLAB/MC – Rua de Paris em dia de chuva – com altas expetativas.

Aqui, o leitor é confrontado com uma personagem, a Autora (com maiúscula), que não (?) se confunde com o narrador omnisciente, e investiga a obra e vida de um mecenas de arte (impressionista)/pintor, Gustave Caillebotte (1848-1894), fascinada por um dos seus quadros (que dá o título ao livro), envolvendo-se com Helena, enigmática e misteriosa professora de história da arte, e outras personagens (quase só figurantes) que com ela se cruzam.

A linha espácio-temporal é, desde o 1.º capítulo, renegada como um dos mistérios da escrita (na continuidade da obra anteriormente lida, característica como marca específica da escritora):

A Autora recorda estas coisas assim, como se as visse, porque na realidade as viu, ou sente que as viu. Conseguiria ela explicar o modo como, um dia, avistou a carruagem envidraçada de Gustave Caillebotte ao cimo da rua de Turin? […] Caillebotte morreu novo, muito antes de a Autora deste livro nascer, e por isso foi necessário que ela recuasse bastante, através de corredores misteriosos, para esse avistamento. Se dissermos que nada disto é possível, que tudo isto contraria as leis da existência, responder-nos-ão que não percebemos nada do tempo, nem da vida, nem dos mistérios fundamentais. […] (opus. cit., pp. 12-13)

Ao longo de 15 capítulos, os meandros de uma investigação cuidada são delineados; viagens por paisagens do passado e do presente; visitas a museus de arte e lembranças das primeiras exposições universais do século XIX; inevitável ligação anímica entre objeto e sujeito de escrita (“[…] a sua relação com Gustave Caillebotte excedia o interesse de uma romancista por uma personagem? […] a Autora sentia-se mergulhar num daqueles momentos / em que o tempo e as suas medidas, os lugares e as suas ocorrências, se diluem numa dimensão misteriosa, aquela onde os vivos e os mortos existem lado a lado, sem assombro nem agitação.” opus. cit., pp. 49-50) – são descritos com elegante primor e refinamento até ao apogeu climático do final:

A Autora tem, ao escrever este livro, a idade de Gustave Caillebotte quando morreu. Inventou quase tudo isto, diremos. Inventou Helena. Mas que temos nós de nosso senão o que inventamos? Se alguém pintasse agora a Autora deste livro, […] esse alguém também a inventaria. […] Mas vocês, ela, Gustave, todos nós, chegados a este ponto da narrativa, sabemos que a paisagem que a habita é a de uma rua de Paris em dia de chuva, o que é muito bonito, mas talvez muito banal. (opus. cit., p. 228)

É provável que um dos maiores mistérios da arte, neste caso da literatura, seja conseguir ‘banalizar’ – tornar simples o que não é familiar – através da invenção das palavras (ou do traço, ou da cor, ou da forma, ou do movimento, ou da imagem, ou do som, ou…), oferecendo-as à interpretação do leitor (segunda marca específica?). Isabel Rio Novo não dececiona o leitor que vinha com altas expetativas. Transformou-se numa escritora importante deste século XXI: uma Autora com maiúscula, capaz de se autorretratar durante o processo de escrita, atravessando as linhas do espaço e do tempo.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

 
Tópicos: Cristina NobrecríticaGustave Caillebotteisabel rio novoletrasliteraturaopiniãoRua de Paris em dia de chuva
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