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Home Crítica

Letras | Tempo de Natal de Hermann Hesse / 1877-1964, Nobel em 46

Graça Sampaio, professora Graça Sampaio, professora
9 de Janeiro de 2026
em Crítica
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Graça Sampaio, professora
Graça Sampaio, professora9 de Janeiro de 2026

Na verdade o Natal já passou. Pode parecer extemporâneo trazer este tema agora aqui. Mas tantos natais hão de vir para alguns de nós e tantos passaram e ficaram registados nas nossas memórias como tempo de encantamento, de felicidade, de inocência, nomeadamente no que ficou guardado no mais fundo da nossa memória desde o tempo da nossa infância, que nunca estará fora de época sobre ele refletir.

É o que vamos encontrar neste belo livrinho Tempo de Natal – coletânea de textos poéticos místicos, críticos, com uma linguagem serena mas forte quando é preciso sê-lo, porque nem tudo é belo no que toca ao Natal – como aliás com qualquer outra época festiva (ou não) do ano. Textos salpicados por poemas e por lindíssimas aguarelas de Inverno do autor, onde ressalta o azul gelo, cobalto, tipicamente alemão.

São 17 textos que abrangem a vida do autor, sendo o mais antigo de 1902/03, o poema “Noite de Natal” (p.17) e o mais recente, de 1956, “Prendas de Natal, uma retrospetiva” que termina com um forte poema Dom Quixote (p.83) Não sejamos, porém, levados a pensar que, com estes títulos, se trata de um livro que “endeusa” o Natal com o brilho das montras, as luzes da cidade, a magia da árvore de Natal com as suas velas acesas. Há sempre uma reflexão crítica, um chamamento a uma dura realidade.

No primeiro e mais belo texto “Sob a Árvore de Natal” (p. 7) descreve o autor a festa de Natal em sua casa: com todos os rituais, ele com 13 anos, a atração dos presentes, a ternura pelo irmãozito mais novo, Hans, encantado com os seus presentinhos simples, mas sem deixar de se condenar pelo sentimento de superioridade em relação ao irmão e o desprezo pelos brinquedinhos que a ele já nada diziam – a passagem do tempo, o crescimento, a perda da inocência. “Eu perdera a felicidade e a inocência (…) também eu fora criança e nada soubera a esse respeito.” E vê “a vida como uma força maligna que nos arranca da terra da infância e nos empurra para a culpa, a desilusão e um trabalho detestável.” “Os tempos que vivemos não são os ideais! Porque a urgência de ganhar dinheiro é agora notória, mais impiedosa (…)” Deixou o Natal de ser a festa do amor e da alegria, para ser a festa do consumismo, das festas medíocres, do sentimentalismo, não do sentimento mas de um sentimentalismo poeirento, uma espécie de hipocrisia. Comovente o texto que fala do quarto Natal em guerra, (I Grande Guerra) quando refere os pacotinhos que se enviavam aos “aos pobres prisioneiros de guerra”. O lamento pelo afastamento dos ensinamentos de Jesus, “no entanto, na noite de Natal, entregam-se a uma vaga e nostálgica recordação dos seus tempos de criança (…)” “A culpa é dos desenvolvimentos políticos, económicos, diz-se, a culpa é do Estado(…) Afinal alguém tem de carregar as culpas.”

Não, não se trata de um livrinho que nos diz como o Natal é lindo, mas o que tem também de produzido, de materialista.

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