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Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada
9 de Junho de 2026
em Opinião
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Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada
Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada9 de Junho de 2026

Apetecia-me ler uma alegoria do descampado, não sou cá de fogueiras em cavernas. Tenho para mim que o fogo, quando arde, é para se ver. Quero tudo chamuscado, reivindico labaredas altas e graus celsius num grau passível de derreter vigas de ferro.

Tragam-me maremotos, terramotos, erupções não previstas. Rebentem com tudo o que previ acontecer, injectem-me napalm nas veias, afundem com torpedos alguma candura que possa restar à tona. Vou fingir-me de morta, não caiam nessa. Atropelem-me ainda sob cascos de cavalo em transe pelo estoirar das bombas. O que ficar de mim nesse chão é igual ao que fica numa proveta de laboratório, quando se ferve a solução e evapora o excipiente.

Apresentem-me soluções fervidas, por favor. Estéreis, inócuas, amplamente testadas em couves galegas, deixem os ratos ser ratos, deixem-me ser pelos ratos, deixem arder o que arde e deixem que se veja arder, principalmente se for amor.

Estive em Pompeia e entendi. Os corpos de lava detidos no último instante mundano de quem cumpria mais um dia normal, mesas postas, crianças ainda no pátio, casais entrelaçados nas camas, cães nos passeios, tudo intacto em pedra vulcânica enegrecida. Parecem esperar uma claquete e um grito de acção. Parece mesmo ser possível suspender o tempo.

Imaginei um inquérito à boca destas urnas a céu aberto, onde se questionava assim: escolheria voltar a respirar, se houvesse escolha entre esta estátua na História que lhe foi concedida e as agruras sem história da sua vida até aqui? Quero acreditar que, nesta sondagem metafísica, o Vesúvio se destacaria com maioria absoluta e a sua fúria seria proclamada com vivas! eleitorais.

O que está eternizado ali é a eternidade – parece uma redundância, mas pensem comigo: haverá conceito mais almejado e menos materializável do que a permanência intacta, a começar no que somos? Aquelas pessoas conseguiram-no, ficaram para sempre o que eram naquele segundo em que a lava as envolveu e preservou. Não envelheceram, não se desintegraram em húmus, não tombaram. Ficaram de pé, algumas num gesto largo de abraço que não chegou a fechar, outras no regresso de uma jorna dura, outras ainda a meio caminho de pôr o tacho na mesa. Todas elas amavam alguém, que será para sempre amado naquela medida exacta. Todas viviam na nossa alucinação colectiva de haver amanhãs, de haver tempo para mudar, para amar mais e melhor, lá mais para a frente. Não há – e todo o amor que era, muito ou pouco, certo ou errado, gritado ou dissimulado, empederniu ali. Naquele segundo que o tornou eterno.

Quando nós já não estivermos cá, eu e tu, em não havendo hecatombe sobre hecatombe lá para os lados de Pompeia, aquela gente cinzenta continuará a ensinar as gerações que deixarmos. Sobre coisas fundamentais ao arrefecimento do ego, como seja a noção de que, na erupção bruta de um Vesúvio, derreterá com a pele e com os tendões. Gravado no magma fica mesmo só o amor.

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