Desde 2008, que marca imprimiu o Parque Tecnológico de Óbidos na região?
Conseguimos ter empresas de base tecnológica na região, que praticamente não existiam e que em Óbidos em particular não existiam mesmo. Conseguimos trazer para a agenda tudo o que é tecnologia, economia digital para a realidade local, que não eram temas muito falados. Conseguimos fazer, ainda que insuficientemente, uma relação com as escolas. Existem hoje, por exemplo, muito mais cursos profissionais nas dimensões tecnológicas. Quando começámos, existia muito desequilibro, muito pouca oferta nesses cursos. Grande parte desse mérito deve-se às escolas, mas há também uma questão que é fundamental, que é termos empresas e termos estágios. Conseguimos também investimento altamente qualificado para o concelho e para a região.
Ainda são uma ilha tecnológica num Oeste agrícola?
Exacto. E está na hora de mudarmos esse paradigma. É muito ligado à agricultura, ao turismo e há muito a visão de clusterização só quase nesses sectores e de esquecer os outros. O que nós estamos sempre a defender é que a região tem potencial para mais e nós temos sido peça importante, mas não queremos ser a única. Não queremos essa ideia de ser um eucalipto que seca tudo à volta. Temos procurado de tudo para que não seja essa a realidade. Podia ser confortável para nós, temos cá um universo de 70 empresas, entre Lisboa e Leiria somos talvez o centro tecnológico de maior dimensão, mas tenho a visão de que sozinhos não faz sentido.
O vosso edifício central está totalmente ocupado. Que espaço ainda têm para crescer?
Está ocupado a cem por cento e neste momento temos lista de espera. Uma questão f[LER_MAIS]undamental desde início era ter sempre uma taxa de ocupação que fizesse sentido para nós e para as empresas. A sustentabilidade financeira da Obitec – Associação Óbidos Ciência e Tecnologia depende muito disso, de uma taxa de ocupação elevada. Nesta fase, se tivéssemos mais espaço, teríamos mais capacidade de atracção de novas empresas.
No total, que volume de negócios atingem as empresas aqui instaladas?
A facturação total das empresas – não tem só a ver com os projectos que têm no parque, porque algumas são multinacionais que têm aqui uma equipa – situa-se na casa dos 150 milhões de euros.
Situado entre Lisboa e Leiria, que desafios e que oportunidades vos oferece a localização do parque?
Estamos numa fase, eu diria um pouco provocatoriamente, ou somos o Norte de Lisboa ou somos o Sul de Leiria. Lisboa tem mais capacidade, do ponto de vista de atracção de investimento. E talvez fizesse mais sentido sermos o Norte de Lisboa. Mas creio que o distrito tem de começar a pensar de forma diferente. Leiria, enquanto cidade, tem vindo a assumir também o seu papel nestas matérias, com a Startup Leiria. Mas, a nível regional, estamos nesta ligação, entre duas cidades. Não estou a dizer que Leiria tenha de competir com Lisboa. Mas, para nós, quando toca a captar investimento, é mais interessante dizer que somos o Norte de Lisboa. O Oeste devia pensar por que é que é mais interessante para nós dizer isso do que dizermos que somos da região Oeste. O investidor tem ainda uma ligação mais forte com Lisboa e é mais fácil para nós fazermos o nosso trabalho e ter investimento estrangeiro, por exemplo, quando fazemos essa relação com Lisboa. Isso é uma vantagem. Obviamente, também nos coloca pressão. Quando as empresas chegam a um determinado patamar de crescimento, é mais fácil para elas deslocarem-se, por exemplo, para Lisboa. E a região tem um trabalho muito grande a fazer. Também já aconteceu o contrário. Já aconteceu termos empresas daqui que vão para Leiria. Acho que é muito mais interessante do ponto de vista regional do que quando acontece a ida para Lisboa. Digo sempre que as empresas não têm geografia, não têm fronteiras, vão para os locais que lhes interessam, que são convenientes para elas e acho que nós, enquanto territórios, temos que perceber exactamente essa realidade. Muitas vezes tem-se uma visão da retenção de talento, que é uma expressão que eu detesto, porque acho que nós temos de facto é de criar a atracção de talento. Retê-lo já é uma decisão das pessoas e tem que continuar a ser uma decisão das pessoas. Elas vão para onde querem, trabalham como querem, onde entendem e as empresas fazem a mesma coisa. Os territórios e os projectos têm é que ser competitivos, interessantes para elas. Se não somos competitivos, se calhar temos que pensar qual é o nosso problema, os desafios que temos de enfrentar.
Volvidas quase duas décadas, que mudanças observa nos empresários portugueses?
Numa abordagem pessoal e empírica, sim, nós notamos muitas. Quando abrimos os edifícios centrais há 10 anos, os empresários diziam muito, principalmente da área tecnológica, de empresas pequenas, que não podiam estar sozinhos. Era esse o motivo para virem para um projecto como o parque. Para não estarem a trabalhar em casa ou em escritórios isolados. Mas era muito difícil gerar networking, gerar sinergias entre projectos e entre pessoas. Isso mudou bastante, principalmente com as novas gerações. As novas gerações gostam de trabalhar em comunidade, gostam de trabalhar com outras. Nós misturámos sempre empresas em fase de incubação com empresas que já estão consolidadas no mercado. Porque percebi sempre que a opinião das outras empresas é mais interessante que a minha opinião, enquanto director do parque. Eles trabalham e aprendem mais uns com os outros do que muitas vezes com projectos e programas que nós tentamos fazer, que, apesar das nossas melhores intenções, podem não ter impacto.
Que áreas de negócio terão mais oportunidades de crescimento nos próximos anos?
Claramente as questões de saúde e biotecnologia, que foram áreas nas quais nós não apostámos desde o início, mas que agora, pelo facto de termos as empresas a investir nestas áreas, nos estão a trazer dinâmicas muito específicas desses sectores. Há uma área à qual eu acho que a região Oeste tem que estar mais atenta – e nós já temos investimentos no parque – a questão da conectividade, data centers. São áreas que vão crescer, que têm tudo para crescer no futuro. E Portugal é talvez um dos países, neste momento, que está a apostar mais para ser uma porta de entrada, para os cabos de fibra óptica a nível europeu, etc. A região não pode perder essa oportunidade. Nós tivemos aqui uma visão do Estado muito centrada, por exemplo, na região de Sines, mas não há questões de ponto de vista técnico que justifiquem que não possa existir noutras partes do País. E nós temos, de facto, condições interessantes. Esta proximidade a Lisboa é interessante para alguns destes projectos e nós também vamos ter aqui projectos de investimento nessas áreas. Quanto à indústria de conteúdos, continuo a achar que nós vivemos aqui num eixo que, apesar do trabalho que tem sido feito ao longo das últimas duas décadas, em torno das indústrias criativas, ainda somos um bocadinho incipientes face ao que poderíamos ser nessa matéria. Alcobaça e Leiria com música, as escolas de artes em Caldas da Rainha, a questão das políticas de eventos culturais em Óbidos… a região tem potencial para fazer mais trabalho nessas áreas. O que é preciso agora, se calhar, é sofisticar um bocadinho mais. Portanto, é isso que nós também estamos a tentar fazer com as apostas ligadas aos videojogos, onde o Politécnico de Leiria também já tem formação. É tentar depois, de alguma forma, contaminar outras actividades, nomeadamente o turismo, os eventos, com esta dimensão mais tecnológica, com a gamificação, etc. Agora, isto tem que ser tudo feito em articulação entre investimento público, investimento privado e com a construção de centros, locais e regionais, com peso internacional. E é nalguns destes sectores que ainda estamos a começar.
Que influência tem tido o desenvolvimento da IA no desempenho das empresas e na empregabilidade das pessoas?
É inevitável e é uma perda de tempo lutar contra ela, no sentido de tentar travar. Como qualquer outra tecnologia com capacidades disruptivas que nós tivemos no passado, esta vai funcionar e vai tomar conta do mercado de acordo com aquilo que nós permitirmos de alguma forma. Obviamente levantam-se questões éticas, questões morais, questões muito complexas em determinadas áreas que até podem ser, e se calhar devem ser, reguladas, regulamentadas. Estamos ainda numa fase muito inicial nesse debate. Nós, por exemplo, no evento do Vila Gaming, tivemos debates sobre isso, muito na perspectiva de perceber qual é o papel, por exemplo, de um criador digital, de um artista digital, em relação à inteligência artificial.
Em algumas áreas, a IA já está contribuir para a dissolução de empregos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, há uma quebra na empregabilidade nas áreas tecnológicas. Curiosamente, onde subiu foi nas artes. Portanto, há uma análise mais fina que tem que ser feita sobre o impacto da IA nesses números. Sabemos que é significativo, quando uma empresa como a Microsoft vai despedir funcionários. Há de facto uma mudança do paradigma do emprego nestas áreas. E mostra também que muitas vezes é fundamental termos uma flexibilidade muito grande nas estratégias e nas formas como temos de trabalhar. O que também não sabemos é a quantidade e os novos tipos de empregos que vão ser criados. E garantidamente vão surgir muitos empregos novos. O País e a União Europeia estão a ficar para trás de forma assustadora. Singapura oferece cursos de IA para todos os cidadãos. Isto torna estas pessoas muito mais capazes e ágeis para enfrentar os desafios que nós vamos ter na próxima década. Acho que nós, enquanto País e até enquanto região, devemos trabalhar isso muito mais.
Que opinião tem sobre esta extinção da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)?
Sou favorável. Teve de facto um papel importante, mas neste momento não é uma entidade que esteja preparada para acopanhar as necessidades que nós temos enquanto País, de desenvolvimento de informação e de investigação científica. A lógica de a juntar com a Agência Nacional de Inovação é uma ideia muito interessante. Espero que seja bem feito, mas como conceito, como projecto, é interessante. É importante termos em Portugal estruturas maiores, mais concentradas e com mais capacidade de actuação. O problema é que nós temos o País completamente polarizado com instituições, com entidades, com municípios, todos a fazer coisas com muito boa vontade, mas com muito pouca capacidade em projectar, face aos desafios que estamos a enfrentar. Eu digo isto inclusivamente em relação ao próprio impacto tecnológico. Desde sempre disse que nós devíamos ter em Óbidos e Caldas da Rainha uma estratégia comum e que nós devíamos ter um projecto à semelhança do que se fez, por exemplo, em Leiria, onde se juntaram três ou quatro entidades para criar a Startup Leiria. Acho que Caldas e Óbidos deveriam criar um pólo com outra capacidade, com outra dimensão de atracção de investimento para a região. Precisamos mais de concentrar entidades e de ganhar essa capacidade, essa força. E espero que a extinção da FCT e a criação de uma nova entidade cumpram esse objectivo.
Entre a História e as empresas
Miguel Silvestre, de 48 anos, é natural de Alcobaça. Com formação académica em História, geria a estratégia da economia criativa em Óbidos, durante a presidência de Telmo Faria neste município, quando foi nomeado para substituir o anterior director do Parque Tecnológico de Óbidos. Acompanhou a construção dos edifícios centrais do parque – que este ano completam uma década – e termina em Outubro o mandato como director-executivo, deixando o projecto para trabalhar no sector privado, com empresas na área da atracção de investimento. Membro do Conselho Nacional da Iniciativa Liberal, Miguel Silvestre foi candidato pela IL à Câmara Alcobaça nas eleições autárquicas de 2021 e cabeça-de-lista pelo mesmo partido pelo distrito de Leiria nas legistivas de 2024.









