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Morreu José Luís Tinoco, músico, escritor, arquitecto e artista plástico

Natural de Leiria, estava radicado em Lisboa há várias décadas

Redacção/Agência Lusa Redacção/Agência Lusa
16 de Abril de 2026
em Viver
Em 2023, publicou o primeiro livro de poesia

Em 2023, publicou o primeiro livro de poesia (Foto: Fotografia: Ricardo Graça/Arquivo JORNAL DE LEIRIA)

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O compositor, artista plástico e arquitecto José Luís Tinoco morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos, disse hoje à Lusa fonte da família.

Pianista, criador de canções como “No teu poema”, “Um homem na cidade” e “Madrugada”, José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou Perseguição dos dias, o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins, Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém “a qualidade dos grandes ‘standards’”, como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.

Leia aqui a entrevista de vida “Sou José Luís Tinoco, autodidacta”, publicada no JORNAL DE LEIRIA a 9 de Maio de 2013

A sua marca, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitectura, à ilustração, ao cartoon, à fotoanimação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.

Concebeu mobiliário, espaços interiores, desenhou capas para livros de autores como Alfred Jarry e José Rodrigues Miguéis, assinou emissões filatélicas dos CTT. Na década de 1980, lançou as bases para o Levantamento da Arte Portuguesa Contemporânea, que dirigiu para a então Secretaria de Estado da Cultura.

José Luís Tinoco é também o arquitecto do plano de urbanização do bairro do Rego, em Lisboa, que a burocracia e antigas gestões municipais nunca ousaram concretizar; o arquitecto da escola do Porto, com o curso concluído na capital, quase de imediato nomeado para o Prémio Valmor pelos traços contemporâneos de uma moradia no Restelo, num concurso que acabou cancelado muito antes de Abril.

Ao longo de toda a vida, escreveu, pintou, compôs.

José Luís Tinoco nasceu em Leiria, em 27 de Dezembro de 1932, num meio cultural privilegiado, como reconhecia, raro para a época. O pai era reitor do liceu, director do Círculo de Cultura Musical e do Museu da Cidade; a mãe, Maria Carlota Tinoco, pianista, pedagoga, concertista.

A música entrou cedo na sua vida. Ainda na infância, começou a construir “de ouvido” o seu repertório. Radicava em Glenn Miller, no swing e nos boogie woogies da época, nas bandas sonoras de filmes que testemunhavam os sucessos da Broadway, no gosto por George Shearing e, sobretudo, na descoberta do pianista Bill Evans. Mas as influências foram mais amplas, traziam o enquadramento da música erudita, em particular o fascínio da adolescência por Maurice Ravel, como confessou em entrevista ao Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), em 2008.

Em 1948, partiu para o Porto, para fazer Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes. Mas a música esteve sempre presente. Estreou-se na rádio em 1951, fez incursões a Coimbra para tocar com a Orquestra Académica, esteve no conjunto do músico alemão Heinz Wörner, que na altura marcava a cena jazzística portuguesa.

Na capital, a arquitectura corria a par do Hot Clube, onde José Luís Tinoco era presença assídua. Aqui tocava piano e contrabaixo, aqui entrou no primeiro grupo do saxofonista Jean-Pierre Gebler, aqui tocou regularmente com António Barros Veloso. E aqui encontrou material para muitas das caricaturas que dizia serem “nitidamente tocadas” pelo ‘traço’ do britânico Ronald Searle, que marcou publicações como a revista The New Yorker e a britânica Punch.

Na altura, “a arquitectura era vivida com paixão, a música e a pintura, também”, como disse ao JL. Mas, pouco a pouco, a pintura e a música ganharam terreno.

José Luís Tinoco não hesitava em enumerar diferentes condicionantes sobre a prática da arquitectura. “Na pintura e na música, não há intervenção de terceiros. Na arquitectura, a descrição de um objecto exige centenas de desenhos, depende de clientes, de intermediários, concretiza-se em estaleiro, está sujeita a intervenções não controladas ou, eventualmente, à destruição. Dela acaba por resultar um objecto precário e vulnerável. Na pintura não se põe esse problema”, disse na entrevista de 2008 ao JL. “Na pintura, estamos sozinhos perante a superfície em branco […]. Em branco está também o espaço na música, o espaço de construção a habitar”.

Em finais da década de 1960, a presença de José Luís Tinoco no Festival da Canção fez diferença, com canções como “Adolescente”, com letra de Yvette Centeno, e “Cidade alheia”, com Pedro Tamen. Depois vieram outras como “Madrugada” e “Os lobos e ninguém”.

“Decidi [participar no festival] um tanto porque me divertia, mas também com a intenção de ver até onde a linguagem do jazz poderia inserir-se na canção portuguesa e enriquecê-la do ponto de vista harmónico e melódico”, disse na entrevista ao JL.

As suas canções traziam sempre algo “essencial, deveras elegante e único”, distanciado dos modelos mais convencionais da época, como a crítica acentuou. Em 1975, venceu o certame com “Madrugada”, por escolha dos próprios concorrentes, uma canção para a qual escreveu letra e música, numa referência à queda da ditadura, interpretada por um capitão de Abril, Duarte Mendes.

Do ano seguinte ficou “No Teu Poema”, também com letra do compositor. Não passou do terceiro lugar, mas poucas canções se mantiveram tão presentes, ao longo dos anos, na música portuguesa. Dos seus muitos ‘clássicos’, há também “Um homem na cidade”, com letra de José Carlos Ary dos Santos.

O trabalho de escritor de canções, no entanto, era apenas uma pequena parte, comparado com o que fez no jazz e com o que arriscou na música para teatro e cinema.

Em 1976, editou o álbum Homo Sapiens, com o qual tentou construir um repertório que se afastasse da canção convencional. “Tinha um conjunto de temas compostos para um disco de jazz-rock que recuperei, juntei-lhe outros, criados de base, formando um todo temático”, recordou ao JL.

Seguiu-se a versão musical de O que diz Molero, de Dinis Machado, em parceria com Fernando Girão e Pedro Luís, destinada à banda sonora de um filme nunca produzido, do qual também assinou o argumento. Compôs para a curta-metragem de Sinde Filipe A cama e para a longa-metragem de Luís Galvão Teles A vida é bela.

Com Margens, em 1997, em parceria com Carlos do Carmo, ultrapassou mais limitações do fado tradicional, explorando elementos ao nível melódico, harmónico e tímbrico.

Em 2008, com Arquipélago, aprofundou o idioma de jazz, com músicos como Mário Laginha, Bernardo Sassetti e João Paulo Esteves da Silva.

Na pintura, se o seu trabalho inicial, nos anos 1960-1970, acusava a tendência neorrealista, “com o ‘tempero’ de Marcel Grommaire, Modigliani e dos desenhos aguarelados de Henry Moore”, como afirmava, pouco a pouco, “a subsequente e progressiva fragmentação da figura humana havia de dar lugar à abstração, embora perseguisse situações de síntese entre as duas atitudes”.

Em 1986, expôs na Fundação Calouste Gulbenkian, numa retrospectiva do que chamava período abstrato, que teria continuidade nas séries “Jardins e Passagens”. No final dos anos 1990, regressou à figuração.

“Ao retomar a figura humana tive de a reaprender de forma diversa, completamente dissociada do ponto em que a abandonara antes. É um tipo de figuração a que não é alheia uma posição crítica em relação aos comportamentos – numa abordagem metafórica da violência, da arbitrariedade, do absurdo – e da própria vulnerabilidade do homem”, disse ao JL.

Nesta fase da sua obra pictórica, tudo radica no quotidiano, na banalidade de um instante, nas múltiplas perspectivas que permite, fixando-se em personagens a que chamava “performers”, “intérpretes, passivos ou activos de um desempenho imposto, aceite ou deliberado”.

Surgiram assim as séries “Crucifixões” ou “Descida da Cruz”, que levou à retrospectiva no Palácio Galveias, em 1998. Sucederam-se “Figurações”, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Lisboa, em 2003, e outras mostras mais recentes como “As idades do corpo”, no Centro Cultural de Cascais, em 2013, “Loop”, retrospectiva no Pavilhão Preto do Museu da Cidade de Lisboa, em 2016, “Os ateliers”, em 2018, em Leiria, e os “Desenhos Inéditos”, na SNBA, em 2024.

Em 1998, publicou “Diálogos”, catálogo de 54 pinturas, com textos de António Lobo Antunes.

“Tudo revela um à-vontade notável com a história da arte”, escreveu a crítica e historiadora de arte Luísa Soares de Oliveira, associando José Luís Tinoco aos artistas dos “tempos presentes”, reconhecendo nele “uma norma, que também é ética”, que o obriga “a renovar-se plasticamente, sempre que tal se revela necessário”; o artista que concebeu “Loop”, uma instalação mecânica, peça de arte sem fim, obra simultaneamente pictórica e musical, sem jamais coincidir imagem e som, “num eterno retorno de uma mesma diferença”, como explicou a investigadora do Instituto de História da Arte, no catálogo “Os ateliers”, dedicado ao pintor e compositor.

Em 2014, José Luís Tinoco recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espectáculo de homenagem Os lados do mar – José Luís Tinoco, dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.

Em 2021, a RTP estreou o documentário Vida e obra de José Luís Tinoco, de Laurent Filipe, disponível na plataforma RTP Play, que atravessa as diferentes expressões da sua obra.

Em 2022, o município de Leiria homenageou-o nos seus 90 anos, num concerto com os músicos Bernardo Tinoco, Pedro Branco, João Hasselberg e João Sousa.

“Evito o fácil”, dizia sempre José Luís Tinoco. “Não cedo só porque é bonito”, garantia. Na música, na pintura, na arquitectura, na vida toda.

Tópicos: José Luís TinocoLeiria
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