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Home Crítica

Música | A música que se queria moderna

Há uma espécie de negacionista, para quem o bar é mais importante do que o palco, a selfie (nos nossos dias) é mais importante do que a música

Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente
13 de Agosto de 2021
em Crítica
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Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente
Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente13 de Agosto de 2021

Foi a um 7 de agosto, mas de 1993, que, no estádio de futebol José Bento Pessoa, na Figueira da Foz, se fez a I Mostra de Música Moderna.

Vinte e oito anos volvidos, essa primeira (e única mostra) ainda está presente nos corações de quem assistiu.

O cartaz começava com os portugueses Braindead, de Almada – que não tocaram – seguiram-se os Tédio Boys, de Coimbra, e depois, de Inglaterra, uns ainda imaturos e novinhos Blur.

A encerrar a noite, e para constar nos anais da história de concertos internacionais, Siouxsie & The Banshees, banda ainda hoje seminal, ligada ao movimento gótico, mas que abraça estéticas e gerações.

Ainda se estava num período de relativa imaturidade no que diz respeito a concertos ao vivo.

Assim, reza a lenda que os ingleses demoraram o tempo que quiseram (um stage manager faz muita falta), com o resultado desastroso – por parte da organização – de suspender as atuações das bandas portuguesas.

Ainda assim, os grandes Tédio Boys fizeram finca-pé, e tocaram um bocadinho (mais ou menos, porque forçaram a entrada em palco) até lhes cortarem o som.

De facto, do lado de cá – como público, entenda-se – tenho a ideia de a abertura de portas ter demorado uma eternidade.

Quem ganhou com isso foram os cafés das redondezas, ocupados pelos jovens convivas, para quem, em 1993, o futuro adivinhava-se radioso e tudo era importante.

É por isso que – caros caretas desta vida – reduzir os concertos a meros momentos de entretenimento, pode ser absolutamente falso.

É que também podem significar ritos de passagem, que marcam para sempre (aqui estou eu a falar de um episódio volvidos 28 anos), e sim, no mês seguinte, na Voz do Operário, em Lisboa, atuariam os germânicos Einstürzende Neubauten, com a primeira parte – cumprida na íntegra e com brio – dos Lucretia Divina, de Viseu.

Foi um Verão de luxo, de formação, um sonho agora distante, mas reparem nestas pequenas coisas.

Entre conversas mais ou menos ébrio-filosóficas num café na Figueira da Foz enquanto se esperava pela abertura de portas, até, em Lisboa, me terem dado um flyer à saída do concerto dos Neubauten – que era um catálogo de venda postal de música menos imediata – ambos os episódios mudaram a minha vida.

É claro que há os que foram, e continuam a ir, e não retiram nada da experiência.

Daí não fazer uma afirmação cabal de que todos têm a mesma experiência. Não têm. Também há uma espécie de negacionista, para quem o bar é mais importante do que o palco, a selfie (nos nossos dias) é mais importante do que a música.

As pistas estão todas lá, mas ninguém entra lá burro e sai de lá esperto.

Aquilo que se processa com a informação recebida é que vai contar.  

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: BlurcríticaEinstürzende NeubautenFigueira da FozI Mostra de Música ModernamúsicaopiniãoPedro Miguel FerreiraSiouxsie & The BansheesTédio Boys
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