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Home Crítica

Música | Aqui estão os meus princípios (mas posso ter outros, caso dê mais jeito)

O que mudou não foi a ética das empresas, mas a correlação de forças. A tecnologia peer-to-peer provou ser impossível de erradicar judicialmente. A indústria percebeu então que era mais rentável canalizar o fluxo digital do que tentar contê-lo

Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente
28 de Agosto de 2026
em Crítica
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Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente
Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente28 de Agosto de 2026

Empresas que há duas décadas processavam adolescentes por descarregarem músicas dos Metallica e que hoje ambicionam o acesso livre para se tornarem os únicos retalhistas, não é apenas uma ironia histórica. É um caso de estudo sobre como o poder económico se adapta, absorve e instrumentaliza as mudanças tecnológicas, mantendo intacta a sua lógica de acumulação.

Segundo o site dedicado ao rock, ultimateclassicrock.com, o contexto histórico é simples: quando os Metallica moveram uma ação judicial, o discurso oficial era de defesa da propriedade intelectual. Em teoria, o argumento moral era potente. Na prática, em vez de inovar, a indústria optou pela perseguição judicial e com isso procurou transferir a responsabilidade do seu fracasso de modelo de negócio para o comportamento individual dos consumidores.

O que mudou não foi a ética das empresas, mas a correlação de forças. A tecnologia peer-to-peer provou ser impossível de erradicar judicialmente. A indústria percebeu então que era mais rentável canalizar o fluxo digital do que tentar contê-lo.

Assistimos assim a uma reconfiguração completa, da propriedade ao acesso. O consumidor deixou de comprar música para alugar acesso a catálogos infinitos. As plataformas de streaming tornaram-se os novos gatekeepers, ao controlar algoritmos, descoberta e remuneração. Assim, o discurso moralista que condenava a pirataria passou a celebrar a democratização do acesso, desde que mediada por contratos que concentram a receita nas plataformas e nas grandes editoras.

Não se trata de uma simples mudança de opinião, mas de uma opacidade estratégica. A falta de escrúpulos manifesta-se através da seletividade moral, ou seja, quando o modelo antigo era lucrativo, a partilha era crime; quando o novo modelo se tornou viável, a partilha tornou-se “experiência do utilizador”.

Por outro lado, houve uma apropriação da linguagem crítica: termos como “comunidade”, “partilha” e “acesso universal” – outrora bandeiras dos movimentos de cultura livre – foram adotados pelo marketing corporativo para vender subscrições. Este percurso ilustra o conceito de recuperação: a capacidade do sistema capitalista de absorver práticas contestatárias, esvaziá-las do seu potencial transformador e reintegrá-las como mercadoria.

Como Lars Ulrich, baterista dos Metallica, viria a reconhecer anos depois, o cerne da disputa não era o dinheiro, mas o controlo. O músico admitiu que se ele quisesse dar a sua música de graça, até dava, porém, essa escolha foi-lhe retirada. A ironia é que, hoje, essa escolha continua ausente, não por obra de hackers, mas por contratos de exclusividade e algoritmos de curadoria que determinam o que é visível e o que é invisível.

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