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Home Crítica

Música | As listas das listas dos melhores do ano

Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente
2 de Janeiro de 2026
em Crítica
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Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente
Pedro Miguel Ferreira, Sociologia e História do Tempo Presente2 de Janeiro de 2026

Apesar de termos, tecnologicamente, acesso a milhões de faixas musicais, as listas de melhores do ano tendem a refletir não tanto a diversidade disponível, mas sim os mecanismos de visibilidade, circulação e legitimação cultural. E aqui entra aquilo que a sociologia tem de reconhecer: ao contrário da visão simplista de que isto é tudo uma cambada de snobs, na verdade é o resultado de um campo estruturado por relações de poder, capital simbólico e redes de influência.

Nestas listas repetem-se muitos temas musicais porque operam dentro de ecossistemas mediáticos e industriais concentrados. Estes ecossistemas são alimentados por máquinas promocionais – de editoras com bons promotores a plataformas de streaming que investem com afinco em artistas que já têm ou potencializam visibilidade. A promoção cria uma espécie de reconhecimento antecipado, ou seja, algo é considerado “bom” porque já circula entre os canais certos.

Algoritmos e feedback loops: O que ouvimos é muitas vezes sugerido por algoritmos que reforçam o que já é popular – mesmo do considerado mais alternativo – criando uma ilusão de descoberta quando, na verdade, estamos a navegar dentro de corredores pré-definidos. Capital cultural: os críticos tendem a valorizar artistas que dialogam com certas tradições, estéticas ou círculos — frequentemente urbanos, anglo-saxónicos ou ligados às “indústrias culturais legítimas”. Isso marginaliza formas de expressão que não passam por esses filtros, por mais ricas que sejam.

Tempo e atenção escassos: mesmo os mais abertos têm tempo limitado. Diante de um oceano de sons, recorrem-se a filtros — selos, críticas, recomendações de amigos — e esses filtros convergem rapidamente. Portanto, a repetição não é (só) monopólio industrial, mas também efeito de um campo cultural que valoriza a consagração mútua. O “melhor” acaba por ser o que é mais facilmente reconhecido como tal por quem detém a autoridade para nomear.

E é aqui que entra a tua experiência se estiveres para aí virado(a): sabes que há vozes incríveis fora dessas listas — vozes que surgem fora dos circuitos dominantes, longe dos centros hegemónicos. A pergunta crítica não é tanto “por que é que estas listas se repetem?”, mas mais “quem é que está a ser sistematicamente excluído delas — e porquê?”. Ainda assim, estas listas são bons resumos do ano. E por isso, no campo da world music, gostaria de destacar Heinali & Andriana -Yaroslava Saienko no trabalho Гільдеґарда (Hildegard), música que nos transporta para outros estados de espírito. Também a pop delicada italiana de Andrea Lazlo De Simone, para ouvir à lareira, sobretudo o tema “ricordo tattile”, pode ser um ponto de partida para libertar amarras. Bom ano!

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