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Home Crítica

Música | Cartografar com o ouvido

Hugo Ferreira, fundador da Omnichord Records Hugo Ferreira, fundador da Omnichord Records
25 de Abril de 2026
em Crítica
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Hugo Ferreira, fundador da Omnichord Records
Hugo Ferreira, fundador da Omnichord Records25 de Abril de 2026

Há nomes que podem não caber na capa de disco ou num cartaz de um festival e ficam de lado na história documentada. E, no entanto, são muitas vezes eles que documentam e sustentam aquilo que ainda hoje ouvimos. Alan Lomax é uma dessas figuras. Nasceu em 1915, nos Estados Unidos, e cresceu no meio de canções que ainda não eram bem “música” como hoje a entendemos. Eram coisas úteis e serviam para trabalhar ou para passar o tempo.

Desde muito cedo acompanhava o pai, também ele entusiasta da tradição musical, e percebeu que aquilo podia desaparecer. E que ninguém estava propriamente preocupado com isso.

Nos anos 30, enquanto o mundo acelerava, Lomax fez o contrário, foi atrás do que ficava para trás. Levava um gravador pesado, pouco prático, e uma ideia simples. Ouvir e registar.

Entrou em casas e prisões, atravessou estradas e campos, foi parando onde o deixavam. Gravou Leadbelly quando ainda era apenas uma voz numa pequena sala, gravou Muddy Waters antes dele chegar sequer a um palco. Não estava à procura de nomes nem de géneros, dava largas à curiosidade e tentava cartografar, como se antecipasse o eventual desaparecimento. Um pouco à maneira do que Michel Giacometti fez por estas bandas.

O impacto sente-se em Bob Dylan ou Joan Baez, na forma como certos ritmos são recuperados e maneiras de cantar reaparecem. As suas gravações são uma espécie de raízes que voltam a crescer de audição em audição e passam a inspirar novas paisagens sonoras.

Depois dos Estados Unidos, Lomax ainda foi recolhendo memórias sonoras por Espanha, Itália e Caraíbas.

Mas nada do que gravava era seu. Lomax falava em equidade cultural, em devolver tudo a quem tivesse a curiosidade de procurar. No fundo, trabalhava a essência da palavra partilha. Hoje, mais de 15.000 gravações suas estão disponíveis através da Association for Cultural Equity e na Biblioteca do Congresso dos EUA. Não como uma enciclopédia fechada, mas como um conjunto de pontos de partida.

A cartografia musical nunca está fechada. Há sempre mais qualquer coisa por mapear e Lomax percebeu que, tantas vezes, tão ou mais urgente do que tocar e cantar, pode ser carregar no botão para gravar.

Até porque saber procurar e saber ouvir pode ser um acto revolucionário.

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