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Nós e a Europa (IV)

A Europa envelhece e em 2030 estima-se que nenhum Estado-membro terá mais que 1% da população mundial.

Francisco J. Mafra, economista Francisco J. Mafra, economista
29 de Agosto de 2018
em Opinião
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Francisco J. Mafra, economista
Francisco J. Mafra, economista29 de Agosto de 2018

Ainda mal refeita de uma crise económica e financeira importada dos EUA há 10 anos, a União Europeia vê-se a braços com a saída de um importante Estado-membro, o Reino Unido, que, de imediato, traz um rombo de 15 mil milhões ao seu curto orçamento comunitário.

Isso implica uma redistribuição de apoios financeiros para 2021, que está a gerar alguns rebuliços: mais dinheiro para inovação digital, segurança, defesa e controlo de fronteiras, mas cortes pesados na agricultura e nos fundos de coesão social.

Muitas outras questões dividem os Estados-membros, desde o alargamento à política de imigração e ao reforço dos poderes das instituições europeias. A Europa, desde os anos 80, defronta-se com um mundo cada vez mais multipolar.

A quota europeia no PIB mundial tem diminuído: 28% em 2004 e 24% em 2015. A quota da sua população na população mundial era de 11% em 1960 e de 6% em 2015.

A Europa envelhece e em 2030 estima-se que nenhum Estado-membro terá mais que 1% da população mundial, o que comprova o que venho dizendo que os Estados da União são todos pequenos, mesmo os que se julgam grandes.

O euro, que nasceu coxo (mas lá se vai endireitando) é a segunda divisa mundial (30% em 2017). Mas, tal como o dólar americano, vai perdendo posição relativa. Além disso tem ainda muito para andar para se ter uma verdadeira política monetária na UE.

Os níveis de desemprego diminuem, mas ainda são elevados. A União tem que duplicar as despesas de defesa até 2045, ou antes mesmo, se as actuais ameaças que se perfilam no horizonte não se desvanecerem.

Do lado bom da coisa temos que a UE é o maior doador de ajuda humanitária e continua a ser a sociedade mais igualitária do mundo. A maior parte dos “media”, sequiosos de desgraças e sensacionalismos, fala dos eurocépticos, dos [LER_MAIS]  hipotéticos separatistas e também dos xenófobos, que também os há.

Mas, apesar disso, inquéritos recentes de opinião mostram que 66% a 81% dos cidadãos europeus estão satisfeitos com a UE como polo de estabilidade, apoiam as quatro liberdades e gostam do euro.

Em Maio de 2017 o presidente Juncker deu o tiro de partida para o Livro Branco sobre o Futuro da Europa, onde são inventariados cinco cenários alternativos para o futuro (os futuros?) da Europa: 1) assegurar a continuidade; 2) restringir-se ao mercado único; 3) fazer “mais” quem quiser “mais”; 4) fazer “menos” com maior eficiência; 5) fazer muito “mais” todos juntos.

É assunto a que terei de voltar numa próxima oportunidade. O futuro a Deus pertence, mas optimista inveterado que me considero, direi que a Europa que está a emergir desta crise será diferente e para melhor.

A UE, ao longo destes seus mais de 60 anos de vida, nunca deixou de ter problemas. Mas a verdade é que vai sobrevivendo, mesmo progredindo, quanto mais não seja ao ritmo dos pequenos passos tão gratos a J. Monnet.

É o que o prof. Lopes Rodrigues, do ISCSP, chama “a permanente re-invenção da Europa, sempre incompleta”, mas também sempre evolutiva, diria eu, sempre progredindo ao resolver com mais ou menos sucesso os problemas que se lhe vão deparando.

Ainda, segundo Lopes Rodrigues, tem que se orientar numa união evolutiva em torno de três eixos: o credibilizante, o federalizante e o democratizante.

*Economista

Tópicos: Francisco J. Mafraopinião
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