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Home Sociedade

Novas tecnologias mantêm padres ligados aos fiéis

Em tempos de pandemia, redes sociais ajudam a alimentar a fé.

Maria Anabela Silva Maria Anabela Silva
17 de Abril de 2020
em Sociedade
Novas tecnologias mantêm padres ligados aos fiéis
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Com as igrejas encerradas e as celebrações vedadas à participações de fiéis, muitos sacerdotes têm recorrido às redes sociais para se manterem ligados aos paroquianos, através da transmissão em directo de missas, que decorrem à porta fechada.

Entre a população mais idosa, há também quem recorra aos meios de comunicação mais tradicionais, como a televisão ou a rádio. Não é a mesma coisa, alegam, mas ajuda a alimentar a fé.

Essa é a opinião de Júlia Silva, de 74 anos, residente no Olival, concelho de Ourém, que, por estes dias, é ouvinte assídua do terço transmitido na Rádio Renascença e assiste à missa dominical pela televisão. As celebrações da Sexta-Feira Santa foram acompanhadas pela internet.

“O meu neto veio aqui pôr-me o computador a trabalhar e vi as cerimónias do Santuário de Fátima. Não é a mesma coisa do que participar, mas é melhor do que nada”, diz, resignada, Júlia Silva.

Catequista na paróquia da Caranguejeira, em Leiria, Celeste Mónico vai alimentando a sua vivência cristã de várias formas. Assiste à missa pela televisão, segue o site Passo a rezar e acompanha as várias propostas de oração feitas pelo pároco local.

O tempo de isolamento social, longe da “azáfama do dia a dia”, tem-lhe servido também para a introspecção e para valorizar aspectos que antes eram secundarizados, como “a beleza da natureza que nos rodeia”. O pior são as “saudade dos abraços” e da presença “física” dos amigos e familiares. É, diz Celeste Mónico, o seu “sacrifício da Quaresma.”

Santuário de Fátima vazio

Estes têm sido também tempos extraordinários na ligação entre a Igreja e os fiéis, que vai sendo alimentada com recurso às tecnologias da comunicação, sobretudo, às redes sociais e a canais como o Youtube. Na Diocese de Leiria-Fátima há vários padres a recorrerem a esses meios para fazer a transmissão de missas e de outros momentos de oração, seguindo o exemplo do bispo D. António Marto.

Foi assim que aconteceu com as cerimónias pascais que o prelado presidiu a partir da Sé Catedral despida de fiéis (a missa de domingo de Páscoa teve lugar na Casa Episcopal). Cenário idêntico repetiu-se no Santuário de Fátima, que viveu uma quadra pascal inédita na sua história, totalmente vazio de peregrinos. As cerimónias foram celebradas na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, sem a presença de fiéis, e transmitidas através da internet.

O gabinete de comunicação da diocese dá conta do esforço das paróquias para “criar alternativas ao isolamento provocado pela crise pandémica” através do recurso “às tecnologias informáticas, cujos canais se têm centralizado, sobretudo, nas redes sociais”.

No site da diocese foi criado um calendário (https://covid.leiriafatima. pt) para a divulgação das transmissões feitas pelos padres, que, “embora nem todos se lembrem de o comunicar”, apresenta uma média de 20 eventos por dia”. Algumas paróquias têm também reunido grupos privados no Whatsapp e “mantêm com os membros que os integram — normalmente através de convite ou pedido de adesão — dinâmicas pastorais que passam pela oração e partilha em grupo”.

Outros sacerdotes “têm motivado as suas comunidades a serem presença activa também nas redes sociais, dando sequência a propostas que têm sido feitas para serem realizadas nesses espaços”.

“É essencial que o contacto humano não se perca, mesmo mantendo a distância recomendada”, André Batista, padre

O uso das tecnologias na interacção com os paroquianos não é uma novidade para André Batista, pároco de Barosa e Azoia, concelho de Leiria, mas, em tempos de pandemia, tem sido reforçado. As redes sociais são utilizadas para a transmissão de celebrações, mas também para “criar dinâmicas” entre a comunidade.

O sacerdote conta que foi através de grupos constituídos no Whatsapp que se dinamizaram algumas actividades da quaresma, umas para os jovens e outras para as famílias, “como a via-sacra em casa”. A internet serviu também para o padre fazer chegar aos paroquianos um vídeo com uma mensagem alusiva à Quaresma, que seguiu por email.

A par dos contactos via digital, André Batista reforçou os telefonemas junto dos mais idosos e dos colaboradores da paróquia, para lhes fazer sentir que, mesmo em confinamento, “não estão sozinhos”. “É essencial que o contacto humano não se perca, mesmo mantendo a distância recomendada”, defende.

Igreja Batista transmite culto online

Também a Igreja Batista de Leiria está a fazer a transmissão online do culto, através do facebook. Tem acontecido com as cerimónias dominicais, como no último domingo, com as celebrações pascais. O pastor António Gonçalves vai também dinamizando uma “escola bíblica online”, que promove o estudo da Bíblia, “sozinho ou em família.

“É um sinal de ternura, para que saibam que atrás das grades há pessoas que estão na frente [de batalha] com eles”, irmã Maria

Lançada através das redes sociais, a campanha Do convento rezo por ti partiu das religiosas de um convento de Campo Maior, mas conta já com a adesão de quase uma centena e meia de freiras em clausura, onde se incluem as comunidades de Fátima das Clarissas e das Carmelitas.

O objectivo é unirem-se “em oração a todos os profissionais de saúde que nestes tempos difíceis com, muito sacrifício e grande trabalho, procuram a saúde e o consolo dos doentes que sofrem afectados pela pandemia causada pelo Covid-19”.

“É um sinal de ternura, para que saibam que atrás das grades há pessoas que estão na frente [de batalha] com eles”, diz a irmã Maria, uma das 12 freiras que vivem em clausura no convento das Irmãs Clarissas em Fátima.

Dentro de muros, sentem-se mais protegidas do novo coronavírus, porque só em situações excepcionais saem à rua. Ainda assim, não estão alheias ao flagelo da pandemia e, por isso, decidiram aderir à campanha Do convento rezo por ti, no âmbito da qual a comunidade ora por um médico, enfermeiro ou auxiliar de hospital que assim o peça.

“Não precisávamos de aderir à iniciativa para orar pelos outros. Mas, assim, temos um grupo específico de pessoas que nos foi confiado. São 34 profissionais de saúde por quem rezamos de forma particular, sem esquecer todos os outros” adianta a irmã Maria, que tem a incumbência de acompanhar as notícias e as indicações das entidades oficiais, quer civis quer religiosas, e de as transmitir às restantes irmãs.

Tópicos: covid-19igrejapadrestecnologias
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