Quando a cidade ainda dorme, Filipe Neves já está no trabalho.
Às 5:30 horas, o fundador da pastelaria Filinata dá início a mais uma madrugada de fornadas de Cardalinhos e Queijadas da Ti Maria Rata, dois ícones da doçaria conventual pombalense que conquistaram não apenas as mesas da região, mas também feiras internacionais e, surpreendentemente, cozinhas tão distantes como o Texas, nos EUA, e o Brasil.
Os Cardalinhos e as queijadas são presença habitual na Better Tourism Lisbon (BTL), na FIL, e em diversas feiras onde o município se apresenta em Portugal e no estrangeiro. “São embaixadores de Pombal”, diz Filipe Neves.
Há quem leve caixas inteiras ao programa de televisão O Preço Certo, há emigrantes que fazem questão de os levar como recordação e as queijadas são um dos doces favoritos de Quim Barreiros, um dos seus maiores divulgadores, que prometeu fazer uma canção sobre Ti Maria Rata.
[LER_MAIS]Filipe Neves explica que tudo começou com o Cardalinho e quando começou a ajudar o cunhado num pequeno café no Largo do Cardal, o Maria das Neves, para ganhar uns trocos.
A 26 de Setembro de 1982, no dia do casamento de Filipe, o cunhado comprou o Café Nicola, em Pombal, onde nasceu uma das estrelas da casa, o Cardalinho, criado pelo próprio Filipe.
“Parece um pastel de nata, mas é diferente. A massa é fininha, quase uma pele só encostada à forma.” O resultado é um bolo discreto por fora, mas de coração secreto que se revela ao trincar.
Ao fim de 15 anos, o espaço foi novamente vendido e o empresário ainda tentou comprá-lo, mas outro interessado ofereceu mais.
O revés tornou-se oportunidade. Encontrou um espaço junto ao viaduto ferroviário e baptizou-o Filinata, de Filipe e pastel de nata. Hoje, tem duas pastelarias.
Se o Cardalinho é recente, as queijadas têm raízes mais atribuladas. A receita foi entregue a Filipe pela mão da antiga proprietária da Farmácia Quaresma, Maria Antónia, por insistência do filho, António Rocha Quaresma.
Trouxe-lhe não só a receita original, mas também a forma original, usada apenas para aquelas queijadas, vendidas nos anos 50, numa loja pequenina, ao lado da farmácia.
Maria Gomes Carvalheiro, era natural de Pombal, ganhou a alcunha quando trabalhava em Coimbra, como mulher-a-dias em casa de futuros doutores de Pombal. Ali, havia duas Marias, uma alta, a Maria Grande e a pequenina Maria Rata.
Depois, passou 12 anos em Évora numa casa de queijadas conventuais. Um dia, decidiu regressar e pediu a receita, mas…
“Quando as começou a fazer, percebeu que tinha sido enganada”, conta Filipe Neves.
Não desistiu. Por tentativa e erro, recriou e melhorou o doce que hoje leva o seu nome.
O segredo da receita? O responsável da Filinata garante que é o queijo fresco.
Os Cardalinhos e as queijadas podem ser encontrados em pontos estratégicos, como o bar da A1, em Pombal. “E os turistas e visitantes ao regressar à região, sabem exactamente o que querem levar na mala: Cardalinhos da Filinata. É sabor a casa.”
O empresário não sabe como será o futuro dos seus doces; se as filhas manterão o negócio ou se alguém continuará o legado. Mas uma coisa é certa, enquanto houver madrugada, forno quente e mãos que sabem medir a massa pela sensibilidade, Pombal continuará a acordar com o aroma doce do legado de Filipe e da Ti Maria Rata.










