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O cínico e o narcisista

Putin, com o seu cinismo frio, consegue, neste discurso, ultrapassar em muito o narcisismo volátil de Trump

José Amado da Silva, professor universitário José Amado da Silva, professor universitário
15 de Maio de 2026
em Opinião
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José Amado da Silva, professor universitário
José Amado da Silva, professor universitário15 de Maio de 2026

Meu Caro Zé

Tencionava conversar contigo sobre a loucura do mundo e, em particular, sobre Trump e os EUA, quando sou confrontado com o discurso de Putin na pífia comemoração do Dia da Vitória, obtida pela cooperação dos Aliados com a União Soviética contra o Nazismo alemão, na II Guerra Mundial. Mas não nos devemos esquecer que os soviéticos só entraram na guerra após serem invadidos pelo exército alemão, em violação do tratado de não agressão assinado por Staline e Hitler, o que parece estar muito esquecido nestas comemorações.

Esta lembrança é imprescindível para explicar o efeito desse discurso nesta minha conversa, desviando (sem nunca o esquecer) a atenção de Trump para Putin. Assim, se quer Trump, quer Putin se comportam como verdadeiros autocratas (em os seus compatriotas, consentem e até aplaudem), ambos espezinhando todos os critérios éticos através da manipulação sistemática, Putin, com o seu cinismo frio, consegue, neste discurso, ultrapassar em muito o narcisismo volátil de Trump.

É que este (quando não assume que é dono do mundo) aparece em nome dos Estados Unidos da América, enquanto Putin, neste discurso, consequente, com todo o seu percurso cuidadosamente traçado ao longo do deste séc. XXI, se assume “czar” do Império Russo ou Soviético, e não da Federação Russa, que é o seu verdadeiro domínio.

Volto sempre ao mesmo.

Para mim uma das falhas fundamentais está no desenvolvimento do sentido crítico. Que abre caminho para o desenvolvimento ético e moral. Mas se não questionarmos estas ideias radicais, eles vão ganhando espaço e “parecem boas ideias”.

O Nazismo parecia uma boa ideia no papel. E milhões compraram a ideia. E milhões morreram e sofreram por causa dela. Eu sempre adorei História. Mas para quem diz que não serve para nada, vejam no que dá não conhecer a história. E até dizer barbaridades como já ouvi: “devia haver mais Salazares!” Só se for o utensílio da cozinha!

Quero deixar uma nota de louvor a todos os militares que já atendi em consulta que tiveram a coragem de enfrentar os seus demónios pessoais e deixá-los no consultório. Assim ficaram de fora das suas vidas pessoais e profissionais e conseguiram manter a sua integridade moral. Porque não é fácil ver injustiças todos os dias, ter vontade de as corrigir e a lei ter os seus limites. Mas o fácil é alimentar esses desejos e pensamentos perigosos e atuar sobre eles. Sem sentido crítico.

Parafraseando M. Luther King, no meio disto tudo o que me preocupa é “o silêncio dos bons.”

Até que ponto chega, por isso, a capacidade de mentir de Putin, ao clamar que os seus soldados que combatem no que ainda designa, depois de mais de quatro anos de verdadeira guerra, como “Operação Militar Especial”, são os atuais herdeiros dos soldados que derrotaram a Alemanha na II Guerra Mundial. Usurpa, com toda a tranquilidade, o papel dos Aliados, que também agride no discurso, na derrota do exército nazi e, sobretudo, o papel global da União Soviética, no qual se incluía a Ucrânia que, nessa guerra, direta ou indiretamente, viu morrer cerca de 3 milhões dos seus cidadãos, tão soldados quanto os soldados russos que Putin quis relembrar.

A velocidade e o gosto pela novidade da informação, inimiga da busca da verdade, faz com que o imperdoável ataque, nos moldes em que foi feito, de Trump e de Nethanyahu, ao Irão, obnubile o iníquo assalto de Putin à Ucrânia, à semelhança do que os nazis fizeram à URSS.

Acresce que, ao invocar o Dia da Vitória, vem lembrar que os herdeiros dos seus heróis atacaram, sem aviso, os herdeiros dos que lutaram ao lado desses heróis. Afinal, quem é que precisa de desnazificação? Até sempre.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: josé amado silvaopinião
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