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O Futuro dos Municípios

Portugal entendeu que as rodovias iriam diminuir as assimetrias regionais, mas a verdade é que as autoestradas acentuaram ainda mais os desequilíbrios entre as regiões.

Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria
29 de Março de 2018
em Opinião
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Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria
Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria29 de Março de 2018

Se Portugal fosse a “jangada de pedra” do Saramago, já há muito que teria naufragado de borco, porque o País é dramaticamente desequilibrado. As áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto (35 municípios) concentram 44% da população residente no País e representam apenas 6% do território.

Ou seja, significa dizer que o restante do País (menos de 6 milhões de habitantes em 94% da sua área geográfica) tem uma densidade demográfica de 66 habitantes por km2 (a média nacional é de 114 hab./km2).

Portugal está na UE desde 1986, e há quase três décadas que tem beneficiado dos fundos comunitários iniciados com o I QCA (1989-93). Segundo Augusto Mateus (25 Anos de Portugal Europeu, 2013), no período 1989-2011, no âmbito dos fundos estruturais e de coesão, Portugal executou o montante de 81 mil milhões de euros.

No âmbito do FEDER, o financiamento europeu foi de 43 mil milhões de euros. E, nesse mesmo período, o País construiu, ampliou e reabilitou 6.332km de estradas contra 2.353km de vias férreas.

Portugal entendeu que as rodovias iriam diminuir as assimetrias regionais, mas a verdade é que as autoestradas acentuaram ainda mais os desequilíbrios entre as regiões.

Em larga medida, o País falhou o seu desenvolvimento regional e, a partir de agora, tudo pode ser demasiado tarde. Em 2015, e enquadrado no programa PT2020, o governo identificou 164 municípios considerados de baixa densidade (baixos níveis de rendimento, empreendedorismo e inovação, fraca densidade populacional, valores acentuados de emigração e de  [LER_MAIS] envelhecimento, poucos serviços, escassa oferta de emprego).

No entanto, para o próximo quadro comunitário de apoio 2021-2027, segundo o Expresso (24/3/18), Portugal pode receber menos 15% de fundos comunitários (4 mil milhões de euros) face ao actual quadro 2014-2020.

Como é sabido, à escala nacional e também mundial, os territórios competem cada vez mais pela captação de recursos produtivos (capital e trabalho). No interior da UE, e num contexto de redução de verbas, os territórios também competem pela captação de fundos comunitários.

Por exemplo, a Andaluzia, que tem 8,5 milhões de habitantes (mais do que os 164 municípios portugueses de baixa densidade), no próximo quadro comunitário 2021-2027 vai competir com Portugal no acesso aos fundos europeus, sobretudo o FEDER.

Portugal é um País demograficamente envelhecido e desequilibrado. O futuro dos municípios portugueses, e das regiões deprimidas, será a capacidade de, cada um deles, criar uma força atractiva e cumulativa de crescimento endógeno.

Apesar de haver casos crescentes de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em concelhos do interior, nos últimos 23 anos, o IDE captado pelo País foi basicamente para Lisboa e Porto. O maior desafio para o futuro deste País é a ocupação coesa do território.

Nada se localiza ao acaso. Portugal deve, o quanto antes, pôr em prática um modelo misto de descentralização (transferência de algumas competências do poder central para o poder local) com desconcentração (transferência de alguns serviços centrais do Estado em Lisboa para outras regiões do País).

Esse modelo misto descentralização/desconcentração servirá de base para a promoção e fortalecimento de clusters regionais e, consequentemente, de força atractiva e cumulativa de desenvolvimento regional endógeno num contexto de redução de fundos comunitários.

*Docente do IPLeiria

Tópicos: Márcio Lopesopinião
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