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O Lado Lunar | A segunda oportunidade

Fernando Ribeiro, músico Fernando Ribeiro, músico
1 de Maio de 2026
em Opinião
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Fernando Ribeiro, músico
Fernando Ribeiro, músico1 de Maio de 2026

Inseridas nas minhas atividades do Oeiras Educa e a convite da Camara Municipal de Oeiras, uma das mais dinâmicas, culturalmente falando, do país, estão duas visitas a dois estabelecimentos prisionais em Caxias.

A primeira aconteceu ontem e representa, para mim, a quarta vez que visito uma cadeia, algo sempre muito desafiante mas também recompensador para os intervenientes em questão neste tipo de ação.

Desafiante porque nos confronta com os nossos preconceitos; recompensador no caso de conseguirmos estabelecer pontes de contacto com uma plateia diferente das a que estou habituado.

Observando sempre as regras e os limites que, obviamente, existem nestes encontros e tendo sempre em atenção o contexto prisional que me rodeia, tenho optado por um discurso direto, honesto e equilibrado por explicações de tom mais filosófico que procuro simplificar, não por desconfiar das capacidades dos meus interlocutores, mas para que melhor sirva os intentos de quem promove estas iniciativas que, de modo geral, será o de humanizar as prisões.

Sendo “tudo vaidade” como dizia Salomão, há outro cuidado a ter em conta: o de não nos envaidecer vmos por termos conseguido “rapport”, i.e., uma conexão com quem nos ouve que sendo ideal, não pode nunca toldar o objetivo primeiro de falar numa biblioteca cheia de reclusos, que será entreter e ajudar a formar pessoas cuja vida está interrompida por circunstâncias que não conhecemos. Na verdade, não podemos nem as devemos saber, os crimes, as penas, de modo a estramos preparados para não julgar quem está à nossa frente e distorcer o nosso discurso. Essa predisposição não seria consentânea com o falar na prisão e se a sentirmos ou se a tivermos mais vale recusar, amavelmente, o convite.

Antes que haja um mal-entendido aqui neste artigo semanal e antes que me acusem de branquear pessoas que cometeram um crime, faço aqui um ponto de situação. Acredito, ou melhor, tento acreditar na justiça e, por consequência, no seu lado punitivo e repressivo que tem de existir como forma de dissuasão e prevenção. Discordo, humildemente, do ceticismo de Foucault acerca da prisão como eterno vigilante, e não-espaços de regeneração, embora este tema seja de altíssima complexidade para um mero músico que gosta de escrever aqui às Sextas.

Em todo o caso quando estamos perante detidos, pessoas como nós, algumas apenas no local errado, à hora errada; outras porventura cruéis, não consigo, aqui sim, me desassociar da ideia de Foucault que sublinha, lá está, a formação, a educação e a erradicação da pobreza e da desigualdade, como os melhores e mais eficazes modos de prevenir a criminalidade. As pessoas para quem falei hoje – quando lerem isto já é ontem – estarão, quem sabe, mais a reagir, errada e criminalmente, decerto, e não a agir, distinção cuja “subtileza” faz toda a diferença.

Talvez seja a idade, a simpatia ou, simplesmente, a vontade de querer acreditar em segundas oportunidades que me esteja, psicologicamente, a sugerir esta visão. Não sei, terei de pensar nisso com a devida distância.

E se Rosseau acreditava na bondade original da raça humana antes da sua corrupção e esta “bondade” primordial se, curiosamente, percepcione nas ruas dos países que já tive a oportunidade de percorrer e que agora estão em guerra – a saber Israel e Líbano e Ucrânia e Rússia -, onde, talvez ingenuamente, senti que nessas mesmas ruas a palavra e o sentimento de ordem era a paz, a harmonia, a convivência plena, tão longe das governações agressivas e bélicas, tão longe de Deus, dos respetivos Deuses, aliás.

Talvez sinta hoje e amanhã e depois, que no meio de tanta tragédia pessoal, de tanta má escolha, essa mítica segunda oportunidade me tenha sido dada a mim. Oportunidade de entender melhor o mundo fechado das cadeias, dando graças à sorte e ao engenho de ter feito, creio eu, boas escolhas e assim e só assim, manter viva a esperança de que não nos vamos agredir, violentar ou matar uns aos outros no futuro.

Que nos iremos dar uma segunda oportunidade.

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