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Home Opinião

O Lado Lunar | O amor a Portugal

Fernando Ribeiro, músico Fernando Ribeiro, músico
29 de Maio de 2026
em Opinião
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Fernando Ribeiro, músico
Fernando Ribeiro, músico29 de Maio de 2026

A saudade é aquela coisa horrível mas que nos define. Uma sensação poética e bicuda que tem dado cabo de Portugal.

A (nossa) vida está a ser ultrapassada pela direita e não tardará muito que Portugal tenha um choque frontal e aí sim vamos contar e chorar mortos e feridos.

Não tenho mais dúvidas.

As saudades que eu tenho são diferentes:

Tenho saudades de um país que achava bonito e com potencial.

Que me dava amor, cultura e história.

Que se batia pelo livre pensamento sem “nos longe encerrar.”

Esse país está a toque de finados e a saque pelos estúpidos.

Um dos meus trabalhados derivados ao fazer e editar música é dar entrevistas.

E estou a pleno vapor.

Uma das quais, originalmente ao Posto Emissor do “jornal” Blitz, e depois vertida pelos outos meios do grupo (Sic Notícias, Expresso), é sempre um momento notório desta onda promocional, pois numa mistura explosiva entre soundbites e escolha clínica da matéria que mais combustível gerar para a caixa de comentários, permite-nos fazer a análise do Portugal que temos e que, infelizmente, merecemos.

E que Portugal é este que vive à sombra das violentas picardias nas estradas, das conversas de café, do telemóvel como arma branca?

É um Portugal de gente estupida, ignorante e atroz.

Gente que acredita que a Rússia é um país comunista; de gente que valida a enorme e injusta diferença salarial entre um CEO e um empregado de caixa, porque o primeiro é “senhor doutor” e se um está onde está, e o outro está onde pode, são questões respetivas de mérito e culpa; de gente que justifica violações a mulheres que se “puseram a jeito”; gente que acha mal haver melhor e mais enfoque na distribuição da riqueza gerada pelos trabalhadores; gente que acha que em cada “artista há um parasita” dos seus impostos (como se os artistas também não os pagassem exatamente porque geram riqueza e não a delapidam).

Enfim gente que não debate, mas despeja, gente que não questiona mas justifica, gente que não tem outra cor política senão a do ódio a tudo e todos, gente que é a nossa gente e com quem nos cruzamos todos os dias na rua e no supermercado.

Depois, há a outra gente:

A que se organizou para limpar as ruas e as matas depois da tempestade por aqui; gente que faz o saquinho do Banco Alimentar com o que pode, mas faz; professores que fazem horas extraordinárias não contabilizadas para escreverem aos pais às 22 da noite a dizer como vão os seus filhos; assistentes sociais que levam a marmita aos idosos e lhes dão as duas palavras de amor que lhes acrescenta mais um dia; bombeiros que vendem rifas para angariar dinheiro para apagar os nossos fogos; doadores de medula, de sangue, de ração animal para os abandonados pelos donos; gente que também é nossa e que sorte temos em a ter.

Se coexistem, se são uns aos outros, se temos o que merecemos, ou nem por isso, para mim é claro como água:

Tudo é escolha.

E eu escolhi viver num país que não é dominado pelos imbecis, num país que não se deixa dominar assim tão fácil, viver num país bonito sem racismo, xenofobia, chauvinismo, no país que dá luta a isso e muito mais; num país que gosta de mim e que não se importa de se apartar do seu dinheiro ganho a muito custo para comprar um disco meu, uma camisola, uma entrada para um concerto; um Portugal agradecido a mim e a outros, sem se sentir abusado ou vilipendiado; um Portugal que vai correr bem e dar muito na cabeça aos ignorantes, aos portuguezes, a essa vil gente de bem.

Fazer esta escolha é muito importante, porque é amar Portugal, porque só este é o amor a Portugal.

Tudo o resto é pó e ao pó voltará.

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