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O perfume do défice

Era o primeiro Primeiro de Maio e de repente uma rajada de metralhadora fez dispersar os portugueses recém livres.

Alexandra Azambuja, publicitária Alexandra Azambuja, publicitária
4 de Abril de 2019
em Opinião
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Alexandra Azambuja, publicitária
Alexandra Azambuja, publicitária4 de Abril de 2019

Eu tinha 11 anos naquele ano. Estudava num colégio religioso de uma cidade de província. Lembro-me como hoje da madre com o transístor colado ao ouvido, com o pequeno aparelho equilibrado sobre o ombro – tão distante da figura que mais tarde associaríamos ao tijolo da música ao ombro – e a ordem inédita de irmos embora para casa, sem aulas nessa tarde.

Não faço ideia como teriam os pais sido avisados nesse tempo pré-telemóvel, mas a verdade é que não deve ter havido aulas, não me lembro. Mais tarde vejo-me no meio da euforia indescritível de uma massa de gente na zona da baixa em Lisboa e tanques por todo o lado.

Era o primeiro Primeiro de Maio e de repente uma rajada de metralhadora fez dispersar os portugueses recém livres. Corremos com o coração a sair boca fora, como se não houvesse amanhã. Ainda não sabíamos que haveria amanhã, mas pouco.

Falava-se de política em todos os cantos do País, em todos os cafés, nesse longínquo tempo pré-doença da comentarite futebolóide, quando as pessoas queriam ter uma palavra a dizer sobre os seus destinos, saber em quem votar, puxar as rédeas de um tempo seu, construir a estrada e o caminho.

O futebol era uma coisa parola e o mundo dos televisionáveis não se atreveria a gastar o horário nobre dissecando até à náusea foras de jogo pela noite fora.

O mundo chegava-nos pelos jornais, pela televisão e pela rádio e havia mediação jornalística.

Gente que teria de prestar contas se escrevesse um título a dizer “Estádio do Euro 2004 vai trazer grande desenvolvimento à cidade“ e afinal depois não. Ou não?

O País modernizou-se, alfabetizou-se e televisionou-se. Entre os sonhos de caracácá da telenovela e a disputa hormonal  [LER_MAIS] encenada pelo futebol, o País recostou-se no maple e deixou de se interessar pelo futuro comum.

Os políticos que tratassem disso que “é para isso que lhes pagamos, arre!”

Entretanto os hospitais à míngua de vergonha governativa enchem-se de macas nos corredores e demissões, as ambulâncias presas sem macas à espera do défice que nos salvará.

Suponho que naquele dia a madre poderia ter explicado aos alunos que 45 anos depois o défice comandaria a vida e não mais o sonho – mas era um colégio religioso e conservador onde o sonho não era bem visto – e o transístor acabou esquecido numa prateleira empoeirada até um dia ir para o lixo, porque a funcionária da limpeza não sabia que raio de aparelho era aquele que não tinha onde clicar.

Entretanto os pais deixaram cada vez mais de ir buscar os filhos porque estão ocupados a ver futebol na novela da vida e no Primeiro de Maio matam-se para ir ao Pingo Doce ao sonho dos 50%, a bandeira da pátria aos ombros e uma mini na mão.

Os políticos continuam a tratar do País porque lhes pagamos para isso, mas contrariados porque podem ir parar a um hospital daqueles em que os chefes de serviço se demitiram e onde se espera 12 horas nas urgências e isso não é compatível com as faltas na Assembleia da República.

Daqui a nada é 25 de Abril. O que é que aconteceu mesmo nesse dia?

*Publicitária

Tópicos: Alexandra azambujaopinião
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