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O traço de união!

Um documentário sobre a pintora Paula Rego, a residir em Londres e feito pelo próprio filho, passou durante dias na versão portuguesa, em discreto cinema de Lisboa.

admin admin
26 de Maio de 2017
em Opinião
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admin
admin26 de Maio de 2017

Paula Rego: histórias e segredos é, porém, importante para se perceber a pintura da autora, construída em boa parte sobre as suas memórias do Portugal rural e amordaçado dos passados anos 50/60 e das vivências pessoais de jovem enviada para Inglaterra aos vinte anos nessa época, em pleno salazarismo.

A forma masculinizante e crua como pinta a sexualidade das mulheres, por exemplo – onde a ambiguidade das práticas abortivas se confunde com o oferecimento sugerido do seu sexo à penetração – ou o simbolismo doutros quadros expressando projecções assumidamente psicanalíticas das suas experiências passadas, são grandemente esclarecidos pelas confissões ao filho, diante das câmaras.

Onde não há contemplações nem com os retratados nem com ela, mesmo a roçarem o chocante. Quase em simultâneo com essa matriz temporal, e fretado pelo Ministério da Defesa, o Índia tinha já passado o Equador e avançava nesse Atlântico aí estranho, de águas assustadoramente lisas e espelhantes como o mercúrio das aulas de Química, e onde navegávamos quase há uma semana.

Nos fundos do porão, em cujo centro iam mercadorias para diversos destinos, protegidas por redes de aço, havia em seu redor dezenas de pequenas divisórias com beliches sobrepostos em que os ocupantes mal se podiam mexer sem se roçar, e recebiam a custo o ar e a luz do exterior, através de minúsculos sirocos a deixar contudo entrever o mar.

A incerteza do destino, a monotonia dos mesmos rituais diários, claustrofóbicos, e a confusão de corpos sem banho levava, por aquela palha, a provocações grosseiras dos militares, quando não mesmo a pancadaria da brava (…). O tal Portugal bruto, intonso (mas obediente) dos inícios da segunda metade do século XX. Íamos todos a caminho da guerra e alguns, de facto, não voltaram.

*Advogado

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Tópicos: joaquim helenoopiniãounião
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