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Home Sociedade

Obras mudaram a face do bairro Sá Carneiro, mas moradores pedem melhorias

Investimento global na requalificação do bairro social de Leiria rondou os 3,2 milhões de euros.

Maria Anabela Silva Maria Anabela Silva
13 de Janeiro de 2020
em Sociedade
Obras mudaram a face do bairro Sá Carneiro, mas moradores pedem melhorias
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“O bairro está mais bonito, mas isso não quer dizer melhor”. As palavras são de Manuel Gaspar, presidente da Associação de Moradores do Bairro Sá Carneiro, e expressam um sentimento generalizado dos residentes, que apontam várias falhas às obras levadas a cabo nos últimos anos.

No total, foram investidos cerca de 3,2 milhões, dos quais 2,4 milhões na requalificação dos prédios, com a substituição das coberturas, que eram ainda em fibrocimento, das janelas, com colocação de caixilharia em alumínio e vidro duplo, e o revestimento exterior dos edifícios com material de isolamento.

A intervenção nos imóveis – que deixou de fora um dos blocos detido maioritariamente por proprietários privados – foi complementada com a requalificação do espaço exterior, um investimento na ordem dos 850 mil euros feito pela Câmara com o apoio de fundos comunitários, que incluiu a construção de um campo de jogos e de um parque infantil, colocação de mobiliário urbano, criação de zonas verdes e de passeios e remodelação da iluminação pública.

Leia ainda: Sá Carneiro – Histórias de um bairro que nunca se livrou do preconceito

 

É indesmentível que as obras transformaram, positivamente, a imagem física do bairro, o que é reconhecido pelos moradores. Estes consideram, contudo, que há melhorias e correcções a fazer, nomeadamente ao nível das condições de conforto das casas, onde já são visíveis sinais de humidade e de infiltrações.

“Era preferível fazer obras por dentro. As casas são frias e muito húmidas”, alega Marcelo Veloso. Esta queixa, partilhada por vários moradores ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA, é refutada por Manuel Tereso, presidente do Conselho de Administração da NHC, a cooperativa social que é proprietária de 148 fogos do bairro [LER_MAIS] e responsável pelas obras no edificado.

O dirigente assegura que, de acordo com monitorizações feitas pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil, a intervenção “trouxe ganhos de conforto e de eficiência térmica”, atribuindo as situações de humidade ao “mau uso das casas”, relacionado com “falta de ventilação”, e à “sobre-ocupação” dos fogos.

Em relação ao interior das habitações, que não foi incluído na empreitada de reabilitação, o administrador da NHC assegura que têm vindo a ser feitos melhoramentos, revelando que, no último ano, houve trabalhos de manutenção na ordem dos 35 mil euros e que, para este ano, estão orçamentados 50 mil euros.

Renda média é de 80 euros

Manuel Tereso frisa que o bairro está abrangido pelo sistema de arrendamento apoiado, com a renda média a rondar os 80 euros, o que se traduz numa receita mensal na ordem dos “dez mil euros”. “Tendo em conta os encargos que temos com o empréstimo de 800 mil euros que fizemos para as obras, não temos margem de manobra para fazer muito mais”, alega.

A intervenção feita no exterior do bairro também merece reparos dos moradores. Por exemplo, na Rua Dr. Rui Garcia da Fonseca há canteiros inacabados e um troço de estrada por alcatroar, enquanto na rua António Elias Ribeiro foram mantidos alguns passeios e muros originais, que evidenciam sinais da idade, e existem abatimentos e buracos nos novos.

Segundo o presidente da associação de moradores, são também necessários melhoramentos nos espaços verdes e nos parques infantil e de merendas e a instalação de bancos e de máquinas de ginástica.

Projecto foi reactivado no ano passado
Viver Melhor promove inclusão social
 
O Bairro Sá Carneiro tem perto de 500 moradores e “uma percentagem elevada” de idosos, “muitos a viver sozinhos”. O número de desempregados e de beneficiários do Rendimento Social de Inserção “é também elevado”, refere uma caracterização feita pela Câmara de Leiria, segundo a qual, o nível médio de rendimento mensal das famílias é de cerca de 365 euros. O grau de escolaridade situa-se, na maior parte dos casos, ao nível do 1.º ciclo e, entre os mais novos, no 9.º ano. Além disto, “verificam-se alguns problemas de consumos de estupefacientes e álcool, solidão, desestruturação familiar, que se têm perpetuado ao longo de gerações”, refere a vereadora da Acção Social, Ana Valentim.
Por forma a “minorar os problemas sociais identificados”, foi reactivado, no ano passado, o Viver Melhor, um projecto coordenado pela Câmara de Leiria, com o envolvimento de vários parceiros locais, que tem como principais objectivos a promoção da inclusão social, o combate à pobreza e discriminação; o desenvolvimento de medidas activas de inclusão e participação cívica do maior número possível de moradores e comunidade envolvente.
Entre as actividades desenvolvidas estão acções de literacia para a saúde, peddy paper, rastreios de saúde, classes de mobilidade (ginástica adaptada), caminhadas na Mata dos Marrazes, artes decorativas e aulas de informática, entre outras. “Este trabalho em rede tem permitido potenciar a imagem do bairro, abri-lo à comunidade e essencialmente melhorar a qualidade de vida dos residentes”, sublinha Ana Valetim. É que, “as intervenções físicas”, com as obras de reabilitação levadas a cabo no bairro nos últimos anos, “são muito importantes, mas é fundamental complementá-las com projectos de inclusão social, em que as pessoas se envolvam, participem e sejam um agente activo para atenuar o estigma que ainda persiste em torno dos bairros sociais”.

 

Tópicos: Bairro Sá Carneirobairro socialLeiriaMarrazes
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