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Home Opinião

Plof

Pois, nunca pensaste; é uma coisa em que ninguém pensa. Porque a possibilidade de perder um braço é algo que jamais nos passa pela cabeça.

Paulo Kellerman, escritor Paulo Kellerman, escritor
18 de Outubro de 2018
em Opinião
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Paulo Kellerman, escritor
Paulo Kellerman, escritor18 de Outubro de 2018

Imagina que caminhas pelo passeio, indiferente a quem te rodeia, focada nos teus pensamentos e fantasias; e de repente, cai-te um braço. Plof. Sai do sítio e cai com um som seco, daqueles sons que não fazem eco.

Não sei se será plof, no fundo ninguém sabe bem qual será o som de um braço a cair no passeio, não é coisa que aconteça com frequência. Alguma vez pensaste nisso, qual será o som de um braço, ou de qualquer outra parte do corpo, a cair no chão? Não interessa, faz de conta que é plof.

Caminhas distraidamente e cai-te o braço. Consegues imaginar? Perderes uma parte essencial de ti. Sim, és feita de muitas partes, de muitos pedaços (visíveis ou não), és um puzzle complexo e dinâmico, em permanente mutação, um puzzle que vais compondo e ordenando como se fosses a arquitecta do teu próprio corpo, projectando e construindo em simultâneo, errando, testando, melhorando.

Claro que há partes essenciais, partes estruturais, partes sem as quais sentes que não sobreviverias; como os braços. Por exemplo: já pensaste como abraçarias alguém se não tivesses um braço? Pois, nunca pensaste; é uma coisa em que ninguém pensa. Porque a possibilidade de perder um braço é algo que jamais nos passa pela cabeça.

Jamais imaginaste que poderias caminhar pelo passeio, indiferente a quem te rodeia, focada nos teus pensamentos, e de repente cair-te um braço. Não consegues imaginar tal hipótese, está para além da tua concepção do real e do possível.

Portanto, não consegues imaginar o que senti quando foste embora.  [LER_MAIS] Porque o que senti quando foste embora foi parecido ao que teria sentido se me tivesse caísse um braço. Plof. E depois, um vazio indescritível; nada mais, apenas vazio.

O mundo a rodar como se nada tivesse acontecido, indiferente e alheado; o braço caído no chão, também indiferente e alheado. E o plof a ecoar indefinidamente, apesar de ser um som sem eco. Mas na verdade estão sempre a acontecer coisas assim, não achas? As vidas são feitas de partidas, de ausências, de perdas.

De plofs. Pessoas que vão, pessoas que deixam de estar com a mesma intensidade de antes, pessoas que chegam mas depois não ficam. Vazios que se acumulam e se sobrepõem, como se fossemos formados por diferentes camadas de vazio.

Como se fossemos compostos por muitos vazios, um puzzle complexo e dinâmico, em permanente mutação, um puzzle que vamos compondo como se fossemos o arquitecto das nossas próprias vidas, projectando e construindo em simultâneo, errando, testando, melhorando. (Só não apagamos, não é possível apagar. E é isso que por vezes angustia: a impossibilidade de apagar o que fizemos e pensámos e desejámos e sonhámos e fracassámos; apagar o errado, o mau, o que nos dói, o que por nossa responsabilidade dói nos outros.)

No fundo, somos uma espécie de gestores de vazio; vamos gerindo os nossos vazios o melhor que podemos. Mas agora esquece os vazios. Imagina simplesmente que caminhas pelo passeio, indiferente a quem te rodeia, focada nos teus pensamentos e fantasias; e de repente, cai-te um braço. E logo depois o outro. Plof, plof. Como abraçarias alguém se não tivesses braços?

*Escritor

Tópicos: opiniãoPaulo Kellerman
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