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Home Sociedade

Praia da Vieira depois da Kristin: Verão ameno e ainda muitos estragos por pagar

Localidade recupera da tempestade, mas comerciantes continuam à espera de apoios

Redacção/Agência Lusa Redacção/Agência Lusa
26 de Agosto de 2026
em Sociedade
Impacto do vento forte na madrugada de 28 de Janeiro deixou marcas que perduram

Impacto do vento forte na madrugada de 28 de Janeiro deixou marcas que perduram (Foto: Ricardo Graça/Arquivo)

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Sete meses depois da tempestade Kristin, a Praia de Vieira de Leiria reergueu-se para aproveitar um dos verões mais amenos dos últimos anos, mas ainda com muitos comerciantes à espera que Estado e seguradoras paguem compensações dos estragos.

“A mãe natureza está a compensar a Praia da Vieira pelo mal que lhe fez”, diz o presidente da Associação para o Desenvolvimento Sócio-Cultural da Praia da Vieira, Carlos Monteiro, satisfeito com o verão, que “tem sido dos melhores dos últimos anos”, apesar de “a chuva ter obrigado a cancelar a procissão” naquela zona do concelho da Marinha Grande, distrito de Leiria.

Por iniciativa da associação, e mestria de dois artistas, a praia ganhou dois novos murais alusivos às suas tradições, enfeitou-se para a festa anual e recebe os veraneantes com uma tenda de animação a ostentar um cartaz com a inscrição “A vida fica melhor na Praia da Vieira”. Mas não ao mesmo ritmo para todos.

Na marginal, agora enfeitada para a festa e com todos os candeeiros a funcionar, o Âncora foi o último bar a abrir portas, na quarta-feira, dia 19, “para tentar, pelo menos, fazer algum dinheiro para pagar os ordenados”, diz o proprietário, Ricardo Costa.

Na madrugada de 28 de Janeiro a fúria do vento não deixou tábua sobre tábua do bar construído há 23 anos, com madeiras vindas do Brasil, e remodelado há anos.

Foram precisos 11 contentores para retirar todos os destroços do estabelecimento, que demorou seis meses a ser reerguido e onde os prejuízos e a reconstrução ascenderam a “meio milhão de euros”, contabiliza Ricardo. Destes, “o seguro só pagou 150 mil” e do Estado a única ajuda foi “70% do lay-off dos trabalhadores, mas só nos primeiros meses”.

“É difícil encontrar resiliência para voltar a pôr tudo de pé, mas a vida tem que continuar”, diz o empresário, sem esquecer a destruição deixada pela tempestade e espelhada numa fotografia de grandes dimensões, afixada numa das paredes do bar, para que quem visita o espaço “tenha uma ideia da dimensão” do que ali se viveu.

Para quem viu de perto e ajudou a limpar os destroços, como os escuteiros da Vieira de Leiria e de Albergaria-a-Velha, a foto “é uma homenagem” que Ricardo quer complementar com “uma churrascada”.

“Para agradecer a ajuda que nos deram quando nem tínhamos sequer água ou luz para fazer as limpezas”, afirma, lamentando, contudo, que “mesmo sem luz e sem contador a EDP tenha mandado um fatura de 800 euros”.

Destruição total foi também o que encontrou, há sete meses, João Ramusga, proprietário da marisqueira Lismar “O Ledo”, reaberta no dia 6 de Julho, depois de uma remodelação de 350 mil euros, dos quais a comparticipação do seguro só foi paga na semana passada.

“Foi muito duro, a casa destruída, cinco meses sem faturar” e sete funcionários em lay-off, com “dois meses ainda por receber do Estado”, relata.

Mauro Feitas, pelo contrário, beneficiou “de ter sido dos primeiros a abrir”, o que valeu ao Cardume receber a clientela dos restaurantes e cafés que se mantiveram fechados nos primeiros meses após a tempestade.

O verão ameno “tem ajudado a recuperar o negócio, mas nota-se que as pessoas têm menos dinheiro e o que foi realmente uma grande ajuda foi o alívio fiscal durante seis meses”, embora “o ‘lay-off’ dos trabalhadores só tenha sido pago em fevereiro”, e o empresário e a mulher tenham ficado “sem receber e com dois filhos para alimentar”.

No Flor do Liz, Bruno Gomes também ainda espera que o Estado pague “dois meses que estão” em falta do ‘lay-off’ dos oito funcionários do restaurante, onde o negócio “está mais fraco desde a segunda quinzena de agosto”. Valem aos comerciantes “muitos clientes que aparecem para ver como vão as coisas e a querer ajudar” e a dinâmica de um comunidade que “está de parabéns por tudo o que fez para preparar a época balnear”.

Essa, diz Cláudio Cabral, “está a correr tão bem como não se via há muitos anos: bom clima, água mais quente e muita gente a aproveitar a praia”. Depois da tempestade que causou prejuízos de 35 mil euros no Restaurante Cabral, o proprietário ainda aguarda que “o seguro pague a segunda tranche dos prejuízos, referente aos riscos elétricos”.

Na praia, onde a destruição foi rápida e a recuperação é lenta, Cláudio aprendeu a “esperar com calma”. O dinheiro do seguro “há de chegar”, como o peixe na rede do barco de arte xávega que observa do paredão.

A dois ritmos segue também a recuperação das típicas casinhas de riscas à entrada da praia: as da venda de peixe foram reparadas, as de bolos e frutos secos “só vão ter telhado posto em setembro”, explica a vendedora Cecília Silva.

“Tivemos que ser nós a cobrir os telhões que se partiram”, lembra, enquanto Carina Silva, numa banca próxima, ressalva que “quando chove ainda pinga” em cima da mercadoria.

E se a chuva não preocupa estas vendedoras, o mesmo não se pode dizer do vento – “sempre que sopra mais forte já há pessoas as fecharem as portas, com medo”, relatam os comerciantes.

À cautela, o dono do Flor do Liz vai “comprar tábuas, para proteger portas e janelas, porque os alertas dizem que vem aí o ‘El Niño’”. E no “Ledo” João Ramusga já trocou o telhado por placa: “Se vier um vendaval, pelo menos as telhas não nos leva.”

Tópicos: KristinMarinha Grandemau tempoPraia da Vieira
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