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Quando a região foi “quartel-general” da oposição ao regime de Salazar

Quando Leiria foi “quartel-general” da oposição ao regime de Salazar. Na sessão solene do 25 de Abril, em Leiria, evocou-se o “relevante contributo” do distrito no combate à ditadura. Além das conquistas da Revolução, os representantes dos partidos deixaram alertas para as ameaças às democracias

Maria Anabela Silva Maria Anabela Silva
25 de Abril de 2023
em Sociedade
Contributo "relevante" da região no combate à ditadura lembrado, em Leiria, na sessão solene do 25 de Abril

Contributo "relevante" da região no combate à ditadura lembrado, em Leiria, na sessão solene do 25 de Abril (Foto: Ricardo Graça)

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O “relevante contributo” do distrito para o 25 de Abril foi recordado por Aberto Costa, preso e exilado político durante a ditadura, durante a sessão solene do 49.º aniversário da Revolução dos Cravos, realizada em Leiria. O antigo ministro disse mesmo que “não se exagerava” quando se chegou a considerar a região como “o quartel-general da oposição”.

“Leiria ficou associada a um relevante contributo para que o 25 de Abril fosse o que foi e tivesse o conteúdo que assumiu. E isso é parte impagável de uma memória democrática”, afirmou Alberto Costa, sublinhando que este foi dos poucos círculos eleitorais que, a partir de 1961, “não desperdiçaram nenhuma oportunidade para se erguer contra a ditadura”. “Fizeram-no apresentando candidaturas pró-democracia”, nas condições “mais adversas”, salientou, frisando que, na “dúzia de anos” que antecederam a revolução, houve uma fase em que, “por deliberação expressa”, “a coordenação nacional do movimento pela democracia se exerceu a partir de Leiria”, onde teve lugar “a maior parte dos encontros nacionais de oposição à ditadura”,

Alberto Costa recordou a importância da Plataforma de S. Pedro de Moel que, em 1969, juntou sectores da oposição democrática de todo o País, de onde saiu um documento que, à reivindicação da liberdade, “juntou o reconhecimento dos povos coloniais à auto-determinação.

“Há que render tributo a todos aqueles homens e mulheres corajosos que, sob um regime opressivo, aqui fizeram a campanha pela democracia ao longo dos anos que antecederam o 25 de Abril, dando um enorme contributo, a começar pelo próprio nome”, defendeu o antigo governante, deixando um apelo para que, no âmbito das comemorações dos 50 anos da revolução seja feito um levantamento dessas pessoas “inscreverem neste território uma espécie de pré-história da democracia”.

 

Reforçar a “imunidade” da democracia

As conquistas de Abril, com a liberdade à cabeça, mas também o desenvolvimento que o País alcançou ao longo das últimas décadas, foram o traço comum aos discursos dos representantes dos partidos com assento na Assembleia Municipal (AM) de Leiria. As várias intervenções ficaram também marcadas por alertas às ameaças que hoje se colocam à democracia, como a corrupção, as desigualdades sociais, o populismo crescente e a falta de participação cívica e de confiança nas instituições.

“A democracia também envelhece e está sujeita a novas patologias, a novas doenças” e, por isso, precisa de “reforçar a imunidade face às ameaças” e de “aprender com o passado, responder ao presente e relançar-se na construção dos caminhos de futuro”, afirmou o presidente da AM. António Sales reconheceu o “inegável” percurso de progresso feito deste o 25 de Abril, mas defendeu que “o caminho feito até aqui exige-nos ainda mais”, nomeadamente, “mais participação, mais envolvimento, debate, reflexão e acção, para gerar mais e melhor confiança, entre nós e com as instituições”.

Para o socialista, é também preciso “um novo compromisso individual e comunitário com a liberdade, o pluralismo, a democracia e o desenvolvimento”, para evitar que o definhar das democracias. “Tal como nascem, as democracias também morrem. E morrem muitas vezes também nas urnas, com políticos que são eleitos” e que “enfraquecem as instituições democráticas”.

“Não podemos permitir que esta efeméride se reduza a uma espécie de prova de vida em que renovamos votos de fidelidade aos ideais democráticos”, reforçou, por seu lado, o presidente da câmara Apontado a democracia como“a conquista mais preciosa para o nosso país, Gonçalo Lopes lamentou que assistamos hoje,“de forma mais ou menos passiva, à erosão de um sistema que nos trouxe até aqui, a um ponto em que nos interrogamos se o caminho que estamos a trilhar nos tem vindo a afastar ou a aproximar do ponto de partida”.

 

Ameaças “emergentes” à democracia

Falando em nome da Iniciativa Liberal, Telmo Marques defendeu que a democracia “só pode florescer” se cada indivíduo “poder escolher livremente as suas crenças”. Alertou ainda para os “retrocessos recentes”, em áreas como a educação e a saúde e disse que “é tempo para mais transparência e mais sustentabilidade”,

Por seu lado, Manuel Lopes, da bancada do PCP, afirmou que “as políticas de direita destruíram e mutilaram muitas das conquistas e Abril” e que “é preciso cumprir Abril com políticas que assumam por inteiro” os seus ideais.

Em representação do CDS-PP, Dário Seguro Joaquim, alertou para os “perigos emergentes do totalitarismo, das autocracias e do populismo” e apontou as carências em áreas como a habitação, a educação e saúde e o combate à corrupção com alguns dos “desafios do regime”, assim coo a “falta de confiança entre eleitores e eleitos” e a tendência “centralizadora” da Administração Pública.

 

“Que liberdade há na indignidade?”

Por seu lado, Frederico Portugal, que discursou em nome do Bloco de Esquerda, considerou que o processo de “transformação social” que resultou do 25 de Abril está hoje ameaçado pela “espiral inflaccionista” e pela especulação imobiliária, que fazem com que haja hoje “muitas pessoas com a corda ao pescoço”. “Temos em mãos uma catástrofe”, advertiu, questionando: “Que liberdade há na indignidade” ou na “incerteza de ter um tecto?”.

Em nome do Chega, Hugo Morgado chamou a atenção para a degradação de algumas das conquistas de Abril, como o SNS, para o “definhar da escola pública”, para a “promiscuidade endémica entre Justiça e poder político” e para os “sucessivos casos de corrupção, que passam completamente impunes”.

Alexandra Carvalho, da bancada do PSD, enumerou um conjunto de indicadores que demonstram a “clara” evolução que o País teve desde o 25 de Abril, mas considerou que “não podemos, de modo algum, estar satisfeitos”, porque “houve outros países que se desenvolveram muito mais do que nós” e porque subsistem “grandes assimetrias regionais”. “O País continua vítima de medidas avulsas”, disse, culpabilizando os governos do PS pela “perda de competitividade económica”, com política “inibidoras da iniciativa privada e pelo aumento da carga fiscal”.

Escolhido para falar em nome do PS, Ricardo Abreu considerou “imprescindível concretizar o projecto social que Abril inaugurou” e “mostrar aos jovens que a sua participação na sociedade faz sentido”. “Para os jovens, o 25 de Abril é uma dívida de gratidão e um estado de espírito. Abril precisa de ser continuado, para reforçar as suas conquistas”, afirmou, concluindo: “Nós, jovens, temos de ser guardiões de Abril”.

Tópicos: 202325 de abrilAlberto CostaLeiriaoposição democráticaquartel-generalsessão solene
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