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Queres casar comigo?

Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada
7 de Julho de 2026
em Opinião
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Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada
Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada7 de Julho de 2026

Causa-me espécie que o casamento venha em forma de contrato, firmado por duas partes cuja identidade será devidamente verificada mediante apresentação dos respectivos documentos oficiais válidos, com testemunhas que cumpram uns determinados requisitos e com registo notarial a folhas x do livro y. Com cláusulas de rescisão e tudo. Com salvaguarda de direitos patrimoniais e assim. Com lógica estudada, com trâmites legais descritos em calhamaços datados e com imposto de selo devidamente liquidado à Tesouraria Pública. Parece-me ainda mais intrigante que a decisão de assinar contrato aconteça no apogeu do apaixonamento entre duas pessoas, como se urgisse assegurar protecção jurídica do amor que o outro garantiu prover durante o prazo de vigência contratual – que no caso é a eternidade.

Entendo o ímpeto romântico da celebração associada, mas parece-me, ainda assim, que uma fausta sardinhada resolvia isso. Com profusão de pimentos assados e batatas com pele, vinho à pressão e nódoas de gordura ostentadas com orgulho. A quem encontra aqui semelhança herege com um qualquer arraial, tenho a dizer que pensaram lindamente, é disso mesmo que se trata. De um festejo pagão entre amigos que estão muito felizes por nós, que esperam que a nossa união perdure e que estarão connosco, em nossa defesa, quando o amor calha de acabar. Não são advogados e nada sabem de leis. Ou se são, e se sabem, a causa é já perdida, por via de não existir contrato que regule a falência da vontade.

Há ainda uma agravante, que se prende com as festas de casamento no formato em que as conhecemos – não se compadecem com clivagens sociais. As fatiotas e a prenda que se sente como devida custam, para muita gente, o mesmo que o recheio da despensa para um mês inteiro. Deixam um problema que tira o sono nas muitas noites seguintes, em que os noivinhos se amam despreocupadamente em palafitas nas Maldivas.

Há muito boa intenção em tudo isto, não digo o contrário. Por parte de todos, dos que casam e dos que vão engrossar as claques de apoio ao tal amor eterno, aperaltados e dispostos a contribuir para as bonitas fotografias. Que se espera não acabem num caixote bafiento, apartado do inventário de partilhas por conter material radioactivo.

Tenho para mim que o casamento não precisa de nada disto. Eu sei de saber sabido, de sentir sentido, que duas pessoas podem querer-se para sempre. A decisão de contratualizar uma obrigação formal nesse sentido é que me provoca uma espécie de sensação de anti-clímax.

Assumo que fica, no entanto, uma questão íntima por resolver. Nós queremos que o outro queira casar connosco. Queremos que um dia nos diga que quer casar connosco, queremos que a partir desse dia repita, reitere, insista e reforce, queremos ouvir de novo quando os corpos em espasmo falarem por nós, queremos ouvir quando o carro entrar em Espanha, queremos ouvir quando a música nos fizer dançar sentados, queremos ouvir sempre que o peito abrir os diques, queremos ouvir quando as línguas enroladas não deixem proferir palavra, queremos ouvir quando as ondas enroladas não deixem largar as mãos, queremos ouvir quando o tasco fechar e ninguém conseguir arredar-nos de lá, queremos ouvir quando o fogão for dos dois e nenhum conseguir dizer que horas são.

Queremos ouvir quando o amor garantir sem contrato que está mais que contratado o casamento de nós.

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