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Ressuscitar é para meninos

Agora só falta a paz para muitos, o pão para outros tantos, a educação para demasiados e a habitação a preços que o comum do mortais que trabalha para viver possa pagar sem ter de abdicar de um rim, de um filho ou da dignidade, para os gajos como eu.

Ricardo Graça, fotojornalista Ricardo Graça, fotojornalista
25 de Abril de 2022
em Opinião
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Ricardo Graça, fotojornalista
Ricardo Graça, fotojornalista25 de Abril de 2022

Difícil é viver manietado por caixotes e ter uma história para vos contar que não seja sobre carregar e esvaziar uma coisa que nós próprios montámos. Sei por alto que o Zelinsky continua fortíssimo como herói e que o PCP está mesmo no ponto para ir ao ar. Parece que também descobriram agora que o Guterres é um frouxo xoninhas. E para todos os efeitos o Amorim é o maior.  Mas eu só tenho enfiado abas de cartão por baixo de outras abas de cartão para depois andar a saltitar por cima delas enfrentando desafios pouco ortodoxos para a coluna e pouco mais sei. 

Devo-vos dizer que chumbei na catequese, mas do que conheço da história a Páscoa deveria dar uma cabazada ao Natal em termos de hype católicófestivo. Num há uns efeitos especiais de concepção manhosos, três gajos a camelo no deserto guiados por uma estrela e um menino que nasce no meio dos animais. Está certo. Mas no outro, já é, para o bem e principalmente para o mal, uma cena com mais ingredientes humanos. Temos porrada, traição, perdão, banquetes a altas horas, uma seita, mulheres, pão e vinho feitos do corpo de um gajo e chicotes e espinhos e crucificações e aquela sensação que podemos atribuir à ressaca de morrer um bocadinho e só voltar à vida três dias depois. Eu não acredito e não estranhava nada se um dia destes descobrissem que a bíblia tinha sido escrita por um só Pessoa lá da zona! mas para todos os efeitos, se procurarem com minucia, diz por lá que perdoar cronistas que falham datas e assuntos garante um belo terreno na eternidade para todos.

Com tudo isto, que é pouco, a acontecer, a única ideia que soa por aqui é esta: Não sei se cheguei a viver acima das minhas possibilidades, como alguns disseram, mas estou farto de o fazer aquém das expectativas. Das minhas, dos outros e de todas as variações de vices versas que não conhecem vencedores. Talvez seja produto da dor causada pelo abandono da pequena comunidade e seus rituais a que pertenci nos últimos anos. Do Bairro. Do vinho da tropa do café em copos de galão. Do homem e a sua demanda em alimentar os animais desvalidos. Das senhoras de pijama a passearem os cães à noite sob a luz mais barata. A boquilha da professora reformada. As agências noticiosas à janela. O glamour decadente das madames enfiadas nas mises.  Todas as falhas andantes do quarteirão. Como é que um homem vive sem um bairro? Sem dominar o seu meio? Como pode um homem deixar as vizinhas do prédio sem nós por lá? Sem os miúdos, sem as piadas, sem o cravanço de ovos, vegetais e açucares e as sugestões de consumo de especiarias fumadas pelo prédio. O que é que vai ser delas sem o nosso cuidado? Como é que isto aconteceu? Como é que estou falido demais para continuar a viver no bairro dos viscondes falidos. Para o raio mais os senhorios. As imobiliárias. Os impostos. Os preços. A redução do poder de compra que, como vocês sabem,  é aquele poder que compra as coisas que definem como é que vivemos.  Para o diabo mais a vida de adulto. Mas eles que se alambazem com os lucros e com a guita e com as propriedades herdadas e que nos mandem para fora da cidade. Quero ver como é que ela fica sem a classe média à rasca. Sem o brilho da nossa tragédia.  Como é que é vamos pagar as coisas que temos de pagar? Como fazem os monoparentais? Os do salário pouco mais que minimo? Como é que sobrevivem? Como é que chegam ao fim do mês sem a corda vincada no pescoço?

As expectativas é que nos atraiçoam. São inalcançáveis. Queríamos viver de uma certa maneira. Ter um certo emprego. Um certo amor. Uma certa casa. Um certo estilo de vida. Tudo em bom e ajustável às circunstâncias e aos caprichos que o desejo e as luas e os impossíveis nos trazem. Muito perto do que achamos merecer, mesmo ali juntinho ao que precisamos. Só nos resta viver a personagem que conseguimos o melhor que conseguirmos. E por muito atractiva ou inevitável que nos pareça a ideia, nunca nos deixarmos seduzir  pela soberba de sucumbir à tristeza incapacitante.

Mas hoje devia ser sobre a liberdade, não era? Todos os dias, não era? E se calhar até é. Isto de querer ser, de tentar ser, de ambicionar, de sonhar, de não conseguir e falhar, e voltar sempre ao nosso pé, ao ressuscitar depois da queda, ao exercício de liberdade e prisão com que temos de lidar enquanto respirarmos.  Podemos sempre não alcançar, provavelmente assim o faremos, mas saber que existe alguma coisa do lado de lá de onde estamos e reclamarmos a possibilidade de lá chegar é uma dádiva e uma pena que a liberdade nos conquistou. Agora só falta a paz para muitos, o pão para outros tantos, a educação para demasiados e a habitação a preços que o comum do mortais que trabalha para viver possa pagar sem ter de abdicar de um rim, de um filho, ou da dignidade, para os gajos como eu.

Tópicos: Ao deus Dará
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