O branco do algodão continua a ser o seu espaço criativo de eleição?
Continua, mas agora também tenho o negro da grafite que entra nesse algodão, tenho pigmentos alaranjados ou a hematite, uma pedra moída até ser pó, que pinta e torna o desenho em pedra. Já não é só algodão, agora é pedra. Mas a base, continua a ser o algodão imaculado que recebe tudo, que é poroso, que é receptivo. É um ‘lugar de escuta’. Um lugar para ver e ouvir os outros e, cada vez mais, tem sido a coisa mais determinante para guiar a minha vida e trabalho. Temos de ver e ouvir os outros, deixando que nos afectem, que nos tragam as suas cores, as suas feridas e as suas alegrias. O algodão traz-me tudo isso.
Está presente um grande elemento de memória e de uma imagem da coisa construída. A própria imagem, esse retrato da construção, cria uma camada nova de memória no objecto?
Exactamente. O objectivo é esse. Quem vai ao meu atelier percebe-o muito bem. A minha produção acontece por esse olhar que se faz por camadas e as recolhas são faseadas no tempo. Quando regresso a uma superfície utilizada anteriormente, ela já tem mais histórias para contar. Agora, com o meu próprio uso, somado ao de outras pessoas, que não conheci, que cá estiveram e viveram este espaço antes de mim. Depois, no atelier, coloco essas camadas em cima umas das outras e começo a perceber as relações entre elas, as histórias que constroem quando dialogam. Interessa-me muito essa “interferência”, no melhor sentido da palavra, que nos torna mais ricos. Sentimos que fazemos parte de um território. O algodão continua a ser uma forma de criar um mapa do território à escala da minha vida. À escala real de 1/1. Toco um metro de chão e é esse metro que vai, como desenho, para a minha obra. É como se, de algum modo, sentisse que estou a construir uma cartografia que me acompanha, sempre em escala real. É um mapa que jamais estará completo, mesmo quando eu já cá não estiver. A obra poderá estar incompleta e poderá ser revisitada, remontada com outras camadas e é interessantíssimo pensar que viverá além de mim.
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