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Home Sociedade

Sair do médico com uma receita para a farmácia e outra para a Academia dos Sonhos

Maria Anabela Silva Maria Anabela Silva
23/01/26 08:01
em Sociedade
Sair do médico com uma receita para a farmácia e outra para a Academia dos Sonhos
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E, se além de tomar os medicamentos habituais, o paciente fizer ioga, uma sessão de mindfulness, ir a palco com uma aula de dança adaptada ou de ginástica, cão-terapia, realidade virtual de relaxamento, visitar a casa dos Pastorinhos, em Fátima, ou almoçar com o irmão que já não vê há anos? Tudo isto é possível com o projecto de prescrição social da Academia dos Sonhos do Centro Social Paroquial dos Pousos, em Leiria.

Arrancou há quatro meses, numa parceria com a Unidade Local de Saúde da Região de Leiria e com o Politécnico de Leiria, e conta já com 130 beneficiários. São pessoas que “sofrem de doença crónica não contagiosa e que apresentam sintomas de depressão, isolamento, ansiedade e solidão”, encaminhados pelo médico de família ou enfermeiro.

“A sinalização dos casos parte das unidades de saúde. É o médico que, ao fazer o diagnóstico clínico, entende que, além da parte farmacológica, há benefício de a pessoa frequentar as actividades da Academia dos Sonhos por considerar que tal pode ajudar no tratamento”, explica Sandra Belo, assistente social que tem a missão de fazer a ligação entre as áreas da saúde e social.

Actividades ajustadas

Ao sair da consulta, o paciente leva consigo a receita dos medicamentos para levantar na farmácia, mas também um formulário de prescrição social, que o encaminha para a Academia dos Sonhos. Aí, é realizada uma “consulta” de diagnóstico para a equipa tentar conhecer os interesses da pessoa e perceber as actividades que melhor se ajustam e que mais benefícios poderão trazer”, especifica a técnica.

E as opções são variadas. Além das atrás mencionadas, há as aulas de diversas mobilidades, dança e matemática adaptada, workshops sobre a temática do envelhecimento e longevidade, mindfulness, jogos de memória e raciocínio, fisioterapia de grupo e psicoterapia. Existe ainda a possibilidade de as pessoas serem integradas em actividades da comunidade, com as quais as pessoas se identifiquem.

“Recebemos há pouco tempo uma pessoa que estava a passar uma fase menos boa. No passado tinha sido escuteira e sabia tocar guitarra, mas, por vicissitudes várias, deixou de o fazer. Conseguimos que voltasse a tocar e está a participar num grupo. O comprar das cordas novas, o voltar a tocar, e participar, sempre que pode, está a ser auto-terapêutico”, conta Alexandra Neves, responsável e fundadora da Academia dos Sonhos, que na sessão que o JORNAL DE LEIRIA acompanhou assumiu também o papel de animadora.

Munida de uma guitarra, ajudou no jogo de estimulação cognitiva, a actividade que, naquela tarde, animou os cerca de 28 beneficiários que integram o pólo dos Pousos do projecto, que tem também núcleos nos Andrinos, Azabucho/ Campo Amarelo e Cortes. São Romão e Vidigal serão os próximos pólos a abrir.

O projecto arrancou em meados de Setembro, depois de uma fase-piloto que contou com o apoio da Fundação la Caixa e que serviu para perceber que “não funcionava ter as actividades só dentro do Centro Social, por causa do preconceito, uma vez que algumas pessoas não queriam entrar no lar”, revela Alexandra Neves.

Por outro lado, “havia quem não tivesse transporte das aldeias circundantes para ir até à instituição”. Pelo que, a opção foi a de levar as actividades até às pessoas, criando núcleos nas várias localidades abrangidas pelo projecto, que, nesta fase, se cinge ao território servido pelas unidades de saúde de Pousos e Cortes. Mas o objectivo é, depois de consolidado, alargá-lo e começar também a trabalhar com o Centro de Saúde Gorjão Henriques. Combate à solidão e ao isolamento.

“Queremos evoluir muito, mas passo a passo”, assume Alexandra Neves no final da sessão que decorreu nas instalações da paróquia dos Pousos. Durante cerca de uma hora, o grupo foi desafiado a participar num jogo cognitivo. Dois a dois, eram convidados a ir à mesa colocada no centro da sala e escolher uma carta que continha desafios em torno de provérbios, adivinhas ou questões de cultura geral do país e do mundo, alguns dos quais servindo de mote para momentos musicais.

“Não curamos doenças. Não temos esse propósito nem essa ambição. Mas damos qualidade de vida e bem-estar às pessoas que por aqui passam e atenuamos vários tipos de sintomas”
Alexandra Neves

“Saímos daqui com outro espírito e com a cabeça mais leve. Aqui, não pensamos em coisas más”, diz uma das beneficiárias, enquanto outros destacam a oportunidade de “aprender mais”, de “puxar pelo cérebro” e de “combater a solidão”. “Ajuda-nos a sair dos buracos negros em que a vida, às vezes, nos faz cair. Ocupamos o tempo, convivemos e divertimo- -nos”, acrescenta Cândida Vieira, de 62 anos, que integra o grupo dos Andrinos.

Nesta localidade, as actividades decorrem na sede da associação. Antes da hora marcada, já o grupo vai ocupando os seus lugares na sala, recebendo a equipa da Academia dos Sonhos com um sorriso aberto. Desta vez, a dinamização está a cargo de Andreia Silva. É a primeira sessão da terapeuta ocupacional, que preparou uma actividade de interacção para se apresentar e para ficar a conhecer um pouco os participantes, auxiliada pela responsável do projecto. Antes disso, houve lugar ao desvendar dos sonhos seleccionados para serem cumpridos no âmbito do projecto.

Alexandra Neves conta que, no último Natal, os participantes foram desafiados a partilharem um desejo que gostavam de concretizar “antes de morrer”. “Uns vamos conseguir realizar. Outros não, ou porque são dispendiosos ou porque não são exequíveis”, explica a técnica, passando depois a revelar os sonhos a concretizar: visita ao Museu de Cera e a Casa dos Pastorinhos, em Fátima; fazer uma massagem de corpo inteiro e ir à Quinta da Regaleira, em Sintra.

Houve ainda um quarto sonho seleccionado, o de Joaquim Vieira, que pediu para ir a Torres Novas visitar o irmão. “Há muitos anos que não o vejo e não me quero ir sem estar com ele”, partilha, um dos dois homens do grupo. O outro “está doente”, refere uma das participantes. Há sempre, diz Alexandra Neves, “um cuidar em comunidade”. “Se alguém não vêm, existe a preocupação de saber a razão da falta, se a pessoa está bem e procurá-la.”

Medição de impacto

Além das actividades colectivas, são também dinamizadas sessões individualizadas, incluindo, com pessoas acamadas e em cuidados paliativos, adianta a animadora social Sandra Pissarra, sublinhando que este não é um projecto para idosos – “temos pessoas a partir dos vinte e poucos anos até aos 94 anos” -, mas para “adultos com doenças crónicas” para quem os médicos reconheçam que este tipo de intervenção é benéfico.

“Não curamos doenças. Não temos esse propósito nem essa ambição. Mas damos qualidade de vida e bem-estar às pessoas que por aqui passam e atenuamos vários tipos de sintomas”, afirma Alexandra Neves. Financiado pelo Centro 2030, através da Portugal Inovação Social, com o apoio do município e de três empresas, o projecto será sujeito à medição de impacto.

O objectivo, explica Andrea Sousa, professora universitária no Politécnico de Leiria, é “mensurar” os benefícios, em termos de qualidade de vida, sentimento de bem-estar e dor emocional”, por exemplo. “Queremos demonstrar, com dados objectivos, que as pessoas chegaram de uma maneira e que, no final do projecto, se encontram de outra”, aponta a investigadora, frisando que “está provado que este tipo e intervenção pode “poupar dinheiro ao Estado”.

“Se conseguirmos que as pessoas vão menos ao médico, façam menos cirurgias, tomem menos medicação, porque estão menos ansiosas, mais comunitárias e melhoram os seus níveis de bem-estar, conseguimos ganhos para todos, a começar pelas próprias pessoas.”

 

Profissionais de saúde “entusiasmados”

Coordenadora da Unidade de Saúde Familiar Leiria Nascente, que abrange Pousos, Barreira e Cortes, Rita Chaves diz que os médicos e enfermeiros estão “muito entusiasmados” com o projecto. “A prescrição social funciona em complementariedade com o nosso trabalho. Tem um retorno muito positivo na vida dos utentes e isso reflecte-se também na sua saúde”, aponta a médica, convicta que o projecto traz “mais-valias a todos” os intervenientes, principalmente, aos beneficiários, cujo “feedback é bastante satisfatório”.

Tópicos: academia dos sonhosLeiriaPousosprescrição socialprojecto

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