Sonhava ser médica desde pequena. O que a cativava nesta profissão?
O que me cativava era poder ajudar os outros, poder salvar vidas. Quando era pequenina, nem sei porquê, o meu sonho era ser obstetra. Tinha aquele fascínio por ajudar a nascer as crianças, estar lá no início de uma vida. Depois, quando durante o curso tive obstetrícia e ginecologia, a parte da ginecologia não me fascinou tanto quanto a obstetrícia. Fiquei assim um pouco balançada relativamente ao que queria. E gostei logo muito da cirurgia, por poder fazer as cirurgias, pela patologia em si, pela possibilidade de realmente fazer a diferença, de podermos salvar as vidas, e a oncologia e a parte da emergência. Porque urgência e emergência também sempre foi uma parte da medicina que me fascinou muito.
Foi mãe durante a fase de internato em cirurgia geral. Como se concilia uma vida profissional exigente com a maternidade e a esfera familiar?
Não foi nada fácil. Primeiro porque foi logo durante o meu segundo ano de internato, com estágios fora do hospital. Quando iniciei essa saída para os estágios já tinha a minha filha. Comecei na cirurgia pediátrica em Coimbra e foi logo assim um grande choque, uma grande dificuldade. Mas [LER_MAIS]a minha filha era um anjo para dormir, para comer, e tive o apoio incondicional dos meus pais. Se não, não teria conseguido, até porque o meu marido também tem uma profissão em que chega a casa às 22 horas.
Hoje, mantém-se o mesmo encanto pela profissão?
Pela profissão, sim. Por tudo o resto que a envolve, todo o sistema, todas as burocracias, toda esta política que envolve a saúde, incondicionalmente, não há volta a dar, sinto-me um bocadinho triste. Acho que existe demasiada política na saúde e que, por vezes, acaba por alterar um bocadinho o que é a nossa profissão, o que é a nossa missão. A medicina é uma profissão e como é óbvio, todos nós gostamos de ter o nosso ordenado ao fim do mês, todos nós temos as nossas contas para pagar. Mas acaba por ser uma profissão com uns valores, com uma missão um bocadinho diferente da grande maioria. Acho que acabamos por estar sempre um pouco à espera das regras todas que existem, dos números, do dinheiro, de tudo e esquecemos um bocadinho a nossa missão, que é o doente em si.
Volvidos tantos anos de prática, que situações ainda a transtornam?
Transtorna-nos sempre dar uma má notícia. Transtorna-nos sempre que uma cirurgia não corre da melhor forma que se imagina. Por vezes pela patologia em si, pelos doentes, pela técnica. Às vezes existem percalços que nós não conseguimos contornar. Levamos sempre os doentes para casa. No meu caso, levo. Não sei se é assim na generalidade. No meu, há sempre aquela ansiedade. Porque é a vida que nós temos nas mãos, são doentes e são pessoas.
O que dizem os tempos de espera sobre o serviço de urgência neste hospital?
Os tempos de espera são muito elevados em termos de urgência geral. Não tanto na cirurgia, porque aí já está marcado. Acaba por ser uma triagem feita de outra forma, os doentes vão directamente para a cirurgia ou são encaminhados de outras especialidades. Mas nas urgências generalistas, quando a pessoa entra no hospital e não está direccionada para uma especialidade, aí os tempos de espera são muito grandes. Nós temos uma população muito grande em termos de afluência à nossa urgência. A nossa urgência, que estava dimensionada para uma determinada população, tem agora quase o dobro, desde que Fátima e Ourém se juntaram a nós. E, portanto, não temos pessoal suficiente. Também não temos as condições físicas para tanta gente. E, por vezes, não conseguimos dar uma resposta atempada aos doentes que entram. Acabam por estar muito tempo à espera de serem atendidos e muito tempo à espera para serem reavaliados. Não tem sido fácil.
Concorda que os hospitais que fecham urgências sejam penalizados nas tranches cedidas pelo Governo?
Isso são problemas políticos aos quais eu estou um bocadinho alheia. Mas não me parece que faça sentido, uma vez que se há urgências fechadas, e talvez estejam a referir-se às de obstetrícia e ginecologia, as outras especialidades não têm propriamente a ver com essa situação.
E qual seria a relação mais salutar entre a oferta do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e das entidades privadas de saúde para garantir médicos em número suficiente no domínio público?
Neste momento, está a haver uma grande saída dos médicos do público para o privado. E, na minha opinião, deveria haver melhores condições dadas aos médicos, e também a outros profissionais desta área, que também acabam por sair, de forma a que tivessem gosto em trabalhar no hospital, no SNS, e para que pudéssemos realmente dar um melhor serviço aos doentes. Também são importantes os privados, porque não temos capacidade para abranger tudo no hospital. E funcionam como complemento. Acho que deveria ser dessa forma. Nem todos os doentes têm possibilidade de ter seguros, capacidade para ir ao privado, pelo que deveria haver uma complementaridade. É preciso criar sobretudo condições para os médicos que trabalham no SNS.
A população da Marinha Grande manifestou-se recentemente pela qualidade de saúde no concelho, incluindo a manutenção do Serviço de Atendimento Permanente. Do seu ponto de vista, este é um serviço que faz sentido continuar?
Acho que realmente é importante. Agora, também era importante que as pessoas que trabalham no SAP tivessem condições mínimas para conseguir dar resposta aos doentes que o procuram. Porque, às vezes, quem está ali também não tem condições nenhumas, nem tem maneira de dar um ponto, não tem um soro, não tem analgésico, não tem nada para dar resposta. E depois, o que acontece? Acabam por ir todos para o hospital. Nesse aspecto, mais vale ter os médicos a trabalhar no hospital do que estarem aqui sem terem condições. O que faz todo o sentido, porque acaba por diminuir a afluência no hospital, é haver realmente melhores condições para actuar aqui no SAP. Uma entidade de cuidados primários, seja ela SAP ou não.
Está prevista a criação de um centro de diagnóstico integrado na Marinha Grande. De alguma forma poderia substituir ou superar o SAP?
Acho que isso ia ser fantástico, numa primeira abordagem ao doente, quando não há necessidade de ir para o hospital. O médico podia fazer um raio-x, podia fazer umas análises, podia fazer aquela primeira triagem, tendo algo em que pudesse ter a confiança de que estava a tratar o doente com o que é necessário para ter um diagnóstico. E em coisas mais difíceis, onde fossem necessários cuidados mais diferenciados, então o doente ia para a urgência do hospital. Isso iria ser muito bom para diminuir a afluência e combatia-se todo aquele ciclo vicioso de tempos de espera. Às vezes os doentes mais graves acabam por estar à espera e não são vistos. E depois, há um agravamento da situação clínica, quando outros podiam ser tratados perfeitamente nos cuidados de saúde primários.
Concorda com a fasquia de notas tão elevadas para o ingresso em medicina?
Funciona por numerus clausus. Existe um número de vagas para entrar em medicina, que já nem são muito poucas. Até já existem bastantes universidades com o curso. A questão é melhorar condições para que os médicos não vão para o privado, não vão para o estrangeiro. Talvez se conseguíssemos rentabilizar os médicos que temos, se calhar eram suficientes para o SNS que temos. O problema é que a maior parte sai e deixa o SNS. Quanto a notas, são espertos. Cada vez temos alunos com notas mais elevadas. Mas talvez se percam alunos com vocação por não atingir essa média. Isso tem a ver com a maneira de classificar. Em muitos países podemos entrar em medicina e só depois há uma triagem, para perceber se a pessoa tem vocação ou não. Não se é barrado à entrada. Porque sabemos que há muitas pessoas que têm muito boas notas, que entram para medicina, mas que depois nem gostam ou não se identificam. E há pessoas com notas mais baixas que acabam por nunca conseguir ter essa profissão e que seriam excelentes médicos. Medicina não é dos cursos mais difíceis de tirar. Precisa é de dedicação, de trabalho. Uma engenharia, uma matemática aplicada é mais difícil do que medicina. Não é só um aluno que tem média de 18 que consegue tirar medicina. Mas neste momento é o nosso meio de fazer essa triagem.
Para alguns pacientes, cancro ainda é um tabu?
Nem é um tabu, é um bicho-papão. No sentido em que para alguns pacientes, quando nós dizemos que têm um cancro, “acabou, não vale a pena fazer mais nada”. No entanto, também cada vez mais, e com toda a possibilidade que as pessoas têm de ver na internet, cada vez têm mais acesso a toda essa informação e cada vez sabem que há mais estudos, mais meios para curarmos o cancro. E acabam por já ter aquela esperança. Enquanto nos velhinhos, é diferente. Às vezes até há famílias que nos pedem para não dizermos ao doente que ele tem um cancro, porque a pessoa fica logo deprimida e não quer fazer mais nada. fazer mais nada. Temos que avaliar um bocadinho a situação, embora todas as pessoas tenham o direito de saber que têm. É uma doença que realmente nos assusta. Felizmente, já temos muitos tumores que conseguimos curar.
Mas ainda se morre por medo ou por vergonha de tratar?
Sim, em zonas mais rurais. O cancro da mama, por exemplo, é uma situação onde a mulher tem vergonha. Na minha prática, é dos tipos de cancro em que me aparecem pessoas com coisas horríveis e que nunca mostraram a ninguém. Recusam- se a mostrar por causa da vergonha e porque acham que não é nada e não querem, não querem… Até que chegam em determinado momento, ou pelo cheiro ou pelas úlceras. A gente não sabe como é que chegaram àquele ponto. Depois, com a família, conseguimos apurar que as pessoas vivem lá no seu cantinho e não mostram a ninguém, andam sempre cobertas. Ainda existe, cada vez menos, mas ainda existe.
Temos aprendido com as campanhas de sensibilização para a fruição saudável do sol?
Sim, mas ainda há muito descuido. Não sou da dermatologia. Mas ainda me acontece retirar. Não é tanto, porque hoje em dia também já existe muito rastreio do cancro da pele e os médicos de família têm uma porta aberta para o dermatologista e há diagnóstico mais precoce.
Que comportamentos a tiram do sério quando vai à praia?
Aquelas pessoas que a gente vê, brancas, brancas, brancas, que vão a primeira vez à praia e estão ali expostas à hora do calor, do sol mais intenso e muitas vezes sem um protector solar. Isso faz-me um bocadinho de confusão. E com crianças pequenas. Quando até se pensa que no primeiro ano nem deveriam frequentar a praia, porque apesar de todos os cremes, todas as roupas, acabam por ter um risco maior de alterações.
Que recomendações relembra para este Verão e para estes dias de maior temperatura?
Não estar na praia ou ao sol nas horas de maior calor, principalmente desde as 11 até às 16 horas. Com as crianças, usar sempre protector solar de ecrã total e voltar a usar várias vezes ao longo do dia. Usar chapéu e óculos de sol. Hidratar, beber muita água. E, principalmente, com os bebés então, não estejam mesmo ali antes das 16 horas. E ter muito cuidado com as orelhas, por exemplo, que são frágeis, extremidades que estão sempre em contacto com o sol.
Foi distinguida como Profissional de Mérito pelo Rotary Club da Marinha Grande. Que características definem, na sua opinião, um profissional de mérito? Eu não estava nada à espera de ser Profissional de Mérito. Acho que foi um pouco pelos valores que também regem os rotários. De dedicação à comunidade, de missão no seu íntimo para com a comunidade, para com as outras pessoas, tentar fazer alguma coisa diferente para a população, para a cidade. E ter algum percurso na carreira que realmente mostre esse caminho. As pessoas que me nomearam conhecem- me, sabem que eu sempre fui muito dedicada à minha profissão, que desde pequena quis ser médica e que sempre lutei muito e deixei de fazer muita coisa na minha vida, de estar com os amigos e família, que vivo no hospital e levo o hospital para casa. E sempre que me foi pedida ajuda, fiz apresentações sobre cancro da mama, sobre cancro do recto, rastreios, quer através dos rotários quer através da Liga Portuguesa Contra o Cancro, sou também voluntária no Rallye Vidreiro.
Que importância têm os rotários na comunidade?
Pelos princípios que os regem, acho que são importantes. O meu marido, Rui Franco, que também foi distinguido como Profissional de Mérito, em 1998, comparticipava com os rotários na atribuição de bolsas para os estudantes com mais dificuldades. Eles promovem eventos para ajudar. Fazem também os cabazes de Natal para famílias carenciadas. Estão sempre atentos a essas situações e ajudam as famílias.










