
Há muitas camadas nas separações de pessoas que um dia partilharam os dias. Não sabemos como se faz, somos pequeninos e queremos a nossa mãe. Convocamos terapeutas, advogados, amigos e poetas, entregamos os pontos à música que toca, feita para desatar choros contidos, e há pessoas a querer morrer. E há pessoas a querer viver, num ímpeto de ressurreição pós via sacra dos dias em comum.
De todas as camadas, enternece-me aquela que, se fosse isolada, conteria em si toda a beleza da dor. Feita do material mais puro, mais orgânico, mais frágil de todos. Feita do medo de nunca mais sermos amados. As fibras do coração figurado entesam-se, disparam hormonas em very-lights de alerta máximo, perigo iminente de solidão fatal, ai que nos morremos aqui. Paramos para analisar a selva densa do que sentimos, por um lado isto e por outro aquilo, antes da guerra estávamos seguros, apesar disto e daquilo. Tínhamos ao lado uma pessoa que um dia nos escolheu, que sentiu ter tido a sorte de nos encontrar na vida. Disse-nos assim, eu de todas as pessoas que existem no mundo inteiro escolho-te a ti. E não conheço nada mais sedutor do que alguém nos querer desta maneira.
Amor taco-a-taco, alegrias mundanas, viagens e filhos e mudanças de emprego e mudanças de casa e amigos e aniversários e cães e gatos e funerais e decisões e mais decisões e compras do mês e arrelias e pazes e sexo e natais e pediatras e veterinários e presentes e gripes e confinamentos e vendavais. Tudo a dois, amor taco-a-taco. Ou só taco-a-taco, ou só dia-a-dia.
Um dia vem a separação e as suas muitas camadas. Camadas de culpa, carradas de alívio. A adrenalina de mudar de uma planície árida, sem perigo à vista, para a selva exuberante do perigo à espreita. E se nunca mais ninguém me escolher?
Não suportamos que a pessoa que já não amamos já não nos ame de volta.
Se o encontrares, diz-lhe que eu estou por aqui. Ele ainda vai querer saber, não é possível que já não queira.










