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Home Opinião

Sem ecos, só o vazio

Numa casa deixada a ficar em ruínas eu vejo a ruína de toda uma sociedade.

Amélia do Vale, professora Amélia do Vale, professora
1 de Agosto de 2026
em Opinião
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Amélia do Vale, professora
Amélia do Vale, professora1 de Agosto de 2026

Há uma rua em Leiria que inevitavelmente me obriga a viajar no tempo e ir lá atrás, à minha infância. É a rua de Tomar e tudo por causa das suas muitas casas em ruínas!

Mais do que um lar os adultos que me criaram ensinaram-me a ver a casa da família como um lugar onde me sentia segura.

Lembro-me bem, por exemplo, de como me sentia confortável ao ver chegar, vindos do campo, os ovos, as couves, as galinhas ou os odres cheios de azeite e percebia que o nascimento, crescimento e a “colheita” de tudo aquilo era controlado pela minha avó.

Um lugar que me mostrou o valor do convívio social ao ver como a matriarca da família não prescindia semanalmente do seu jogo da canastra para tomar chá e trocar novidades com as amigas.

Um lugar onde descobri, ao ouvir deliciada as histórias que me contavam dos meus antepassados, os porquês de gostar de me sentir a pertencer à família.

Possivelmente, reside neste meu entendimento das casas como lugares repletos de significados a causa da melancolia que sinto ao contemplar, as casas abandonadas e em ruínas na dita rua.

Olho-as e numa daquelas janelas, outrora aberta para o mundo, já não posso ver uma criança a chamar os amigos para a brincadeira.

O teto que ruiu já não pode proteger do frio uma família, o chão já não serve para ser pisado por alguém.

Numa cortina de croché que ainda persiste pendurada numa janela quebrada, vejo um rasto humano que teima em não morrer.

E sim, naquelas ruínas não vejo apenas muros de pedras. Vejo o esqueleto de uma intimidade desfeita engolida pelo tempo, mas não só!

Numa casa deixada a ficar em ruínas eu vejo a ruína de toda uma sociedade.

Estão, imaterialmente, arruinados os seus donos que não se importam de a mostrar assim, por tanto tempo, tão desgraçada, aos outros e aos seus descendentes.

Certamente, está também arruinado o país que sem casas para tantos dos seus, a deixa permanecer abandonada, degradada, feia e inútil por fechar os olhos aos deveres dos materialistas arquitetos da ruína e ao facto de não ser absoluto direito à propriedade privada.

E por isso sim, quando passo naquela rua a tristeza instala-se em mim.

Àquelas casas, antes lugares de vida, já ninguém quer pertencer, já ninguém quer voltar.

Passadas de geração em geração vejo-as agora largadas ao abandono e percebo como, no presente, já ninguém as olha como pontos de encontro entre o passado e o futuro de uma família ou de uma comunidade.

Percebo com tristeza que são apenas lugares sem alma, lugares impedidos de projetar ecos do passado pois lá só habitam os muito desejados e “valiosos” vazios!

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