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Será isto uma incógnita? Talvez não!

A matemática que se ensina aqui quase que só serve a quem da sua nota precisar para ingressar num qualquer curso do ensino superior!

Amélia do Vale, professora Amélia do Vale, professora
12 de Junho de 2020
em Opinião
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Amélia do Vale, professora
Amélia do Vale, professora12 de Junho de 2020

Há uns dias li que um terço dos alunos entra no secundário com negativa a matemática, perpetuando-se um preocupante nível de insucesso nesta disciplina.

Felizmente, li também tratar-se de uma exceção uma vez que, nas outras disciplinas, houve, globalmente, uma melhoria nos resultados. Ora, porque carga de água é que esta notícia não me surpreendeu?

Não me surpreendeu porque considero que a Escola em Portugal ainda não se libertou de ter sido, no passado, programada só para os que podiam passar duas dezenas de anos, fora do mercado de trabalho, apenas a estudar vivendo à custa do dinheiro que, todos os meses, lhes chegava de casa.

E se, ao estudar os currículos e respetivos programas disciplinares, sempre tive essa sensação, hoje observando a escola do lado de fora, reforço esse meu entendimento!

Penso que foi na revista Visão que há uns anos li ser a Suécia o país com menos licenciados no governo, em oposição ao que acontecia em Portugal, onde todos os governantes tinham pelo menos uma licenciatura.

Quer isto dizer que já então se reconhecia o cidadão sueco, habilitado “apenas” com a escolaridade obrigatória, como competente para integrar o governo do seu país, enquanto que aqui tal seria impensável.

Desde então assumi como preocupação central das minhas funções docentes tudo fazer para participar na construção de uma sólida formação do cidadão com a escolaridade obrigatória.

Por causa disto, sempre que viajava para países onde o insucesso com a matemática era menor do que o nosso, ou já estava assumido como um problema a resolver, procurava livros que me pudessem ajudar.

Particularmente, três: um de Ewart Smith, intitulado Basic Malhs, outro de Maria Goulding, Learning to Teach Mathematics, e um outro All the Math You’ll Ever Need: A Self-Teaching Guide de Steve Slavim, auxiliaram-me bastante para compreender qual a matemática que melhor iria servir aos meus alunos, capacitando cada um para o exercício de uma cidadania plena.

Desde essa altura, com esses meus estudos caseiros, percebi a causa que faz ser tão complicado aprender matemática em Portugal: a matemática que se ensina aqui quase que só serve a quem da sua nota precisar para ingressar num qualquer curso do ensino superior!

Aos outros, ela surge como desinteressante, inútil e, perdoem-me, uma “seca”.

Pois se nunca lhes foi dada a possibilidade de a olharem como uma ferramenta valiosa, por exemplo, para gerirem melhor e de forma mais inteligente as suas finanças, os seus negócios ou até as suas economias domésticas, como senti-la de uma outra maneira?

Proponho, por isso, que ao analisarmos este permanente insucesso na aprendizagem da matemática mudemos de discurso!

Em vez de centrarmos a causa de tal ocorrência na falta de esforço dos alunos e no facilitismo do ensino tão divulgado pelos “cratianos”, passemos a olhar o elitismo que impregna os programas de matemática como a causa maior para a persistência do problema.

Pela minha parte anseio que assim seja.

Sinceramente, não percebo como os matemáticos (os que se impõem na feitura dos currículos da disciplina) ainda não chegaram onde os outros, os das outras disciplinas, há já algum tempo andam a chegar!

Será isto uma incógnita? Talvez não!

Basta que na equação trabalhemos com variáveis ligadas ao poder de alguns matemáticos…

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: Amélia do Valeopinião
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