Mais um ano e a União Desportiva de Leiria (UDL) não subiu de divisão. O que se passou?
Entendemos que toda a família unionista tenha sentido o momento, porque ano após ano falhamos a subida no último jogo. Tem de se ter estômago para se ser adepto da UDL. A nossa dor é muito grande. Encontrámos aqui gente muito pura, sem qualquer interesse pessoal. Mas, infelizmente, tarda em existir um entendimento entre a Direcção do clube e os dirigentes da SAD.
O projecto do investidor Alexander Tolstikov continua a fazer sentido?
É preciso recordar como tudo começou. No Verão de 2014, o Alexander já tinha anunciado que estava à procura de um clube onde pudesse aplicar o projecto da sua vida, que era investir num clube que tivesse infra-estruturas, porque a ambição era chegar o mais alto possível. Seria mais fácil investir num clube com pouca história, onde as pessoas não tinham memória de êxitos e aí nem teria 1% dos problemas. A UDL tinha um potencial enorme, mas com um histórico recente tanto de êxitos como de turbulência e isso não correu da melhor forma.
Porquê?
No primeiro ano, o Alexander foi só um investidor e investiu cerca de 375 mil euros, ainda sem haver SAD. Depois, foi posto ao escrutínio dos sócios fazer uma SAD para continuar a investir forte na vertente desportiva, profissionalizar a equipa de seniores e apostar na subida de divisão. No primeiro ano da SAD, em termos desportivos estava a correr tudo bastante bem, mas em termos de organização encontrámos resistências da parte dos fornecedores, que por desconfiança exigiam pagamentos antecipados. Entendemos e percebemos que precisávamos de mostrar quem somos. Não havia atrasos e pagávamos tudo a tempo e horas. Mas, de repente, acontece a Operação Matrioskas, que foi um estrondo inesperado, que abalou o projecto, mas não a ambição do Alexander. É impossível passar por um processo judicial, com prisão preventiva, sem deixar sequelas. A magnitude mediática foi enorme. Chegou inclusive à CNN. A UDL viu a sua vida completamente enxovalhada, na lama. Mesmo que se fique ilibado das suspeições, na memória da sociedade civil permanece a dúvida. Toda a gente naquela altura falava: aqueles “russos”… Curiosamente, só há um na SAD e é quem investe dinheiro.
De que forma esse processo abalou o projecto?
As contas foram bloqueadas. Faltavam duas jornadas do playoff, onde bastava à UDL ter duas vitórias. Acreditamos que se não houvesse a Operação Matrioskas, que não só nos abalou como a toda a equipa, que não sabia o seu futuro nem se iria receber salários, poderíamos ter subido. Não sabíamos quanto tempo íamos ficar detidos e, mesmo na prisão, começámos a preparar a época. Sabíamos que estávamos inocentes e que o engano não iria prolongar-se muito tempo. Acabámos por não ter a possibilidade de escolher os melhores, porque esses já estavam contratados. Mesmo assim, conseguimos dar a volta e chegar ao último jogo do campeonato com reais possibilidades de passar ao playoff. Na minha opinião, isso demonstra competência. Depois surge aquela situação do Carapinheirense, um resultado passível de diferentes interpretações, e por diferença de golos não passámos. Decidimos fazer um trabalho mais profundo na época seguinte, que foi brilhante e culminou com um estádio praticamente cheio, num jogo decisivo, onde, infelizmente, não tivemos a estrelinha da sorte. Naquele momento, sentimos uma desilusão enorme nas pessoas. Foi outro murro no estômago. Cada ano nesta divisão, o Alexander gasta dinheiro, num projecto que também é comercial. Ele nunca escondeu. Investe dinheiro para um dia vir a ganhar.
Fala-se em lavagem de dinheiro…
Se houvesse lavagem de dinheiro não se tinha arquivado o processo. A suspeita tem que ver com o facto de ser um russo e há essa conotação da ligação à máfia. É um preconceito que tem que ver com os novos ricos que apareceram no início dos anos 2000 a comprar clubes de futebol.
Há dúvidas de onde vem o dinheiro de Alexander Tolstikov.
Ele desenvolveu actividades empresariais lícitas no seu país de origem e noutros países que lhe trouxeram ganhos consideráveis. Além disso, faz um trabalho forte na procura de financiamento e tem conseguido, mesmo não sendo fácil. Ele tinha duas soluções: ou desperdiçava tudo o que tinha investido ou continuava. Conhecendo-o como conheço, sei que não vai desistir. É também uma questão de honra. Não conheço um guerreiro maior do que ele, que continua a lutar sem tréguas há cinco anos, longe da família, mesmo com os ataques que tem sofrido de todo o lado, incluindo os de dentro da UDL. Não podemos esquecer que a Operação Matrioskas começou com uma denúncia anónima. Mas para se entender melhor temos de apontar umas coisas. O Alexander pagou todas as dívidas do clube: cerca de 396 mil euros à Segurança Social e à Autoridade Tributária. O clube ficou completamente limpo e com a declaração de não dívida teve a possibilidade de aceder a apoios e, claro, passou a ser apetecível para muitas pessoas.
A vinda de Alexander foi positiva para o clube?
Perguntem ao então presidente Rui Lisboa se caiu bem ou não a possibilidade de haver um investidor. Ele sabe bem o que custa sustentar uma equipa de seniores. Sobretudo se quiser subir de divisão, precisa de muitos recursos. Foi mesmo dito que a entrada de Alexander foi, na altura, um autêntico jackpot para a UDL, que podia ter ficado sem futebol sénior. Sempre tivemos muita atenção à formação. Vários miúdos chegaram aos seniores e fizemos regressar jovens que se formaram na UDL e com quem o público leiriense se identifica. Tentámos devolver a mística ao clube. Foi assim que jogadores como Benny e Afonso transitaram para os seniores, que o Bruno Jordão, com 16 anos, teve oportunidade de se estrear e mostrar o seu talento, entre outros. Tirarem-nos agora os juniores foi um golpe forte, que lamentamos.
Mas os problemas financeiros começaram a surgir.
Não escondemos os problemas financeiros que o projecto atravessou durante esta época e lutámos até ao fim para dar as condições necessárias aos atletas. Os nossos jogadores, mesmo com alguns atrasos de pagamentos, não morriam à fome, como se dizia. A porta estava sempre aberta para o que eles precisassem e sempre procurámos resolver no imediato os problemas.
Mas, por que faltou o dinheiro?
O dinheiro não cai do céu. Trata-se de um investimento a rondar um milhão de euros por época, dos quais cerca de 300 mil euros são pagamentos à Autoridade Tributária e à Segurança Social. E isso está completamente em dia. [LER_MAIS] Gostava de saber quantos clubes do nosso campeonato têm uma contribuição deste tamanho para os cofres do Estado. O investimento vem da Rússia e a relação entre a União Europeia e a Rússia não é a melhor desde 2014. Logo, a entrada de investimento que vem da Rússia é muito dificultada. O dinheiro que chega à UDL passa por uma série de filtros legais, que tem que ver com burocracia da Rússia e da UE. É muito complicado o dinheiro chegar cá e, muitas vezes, não depende de nós. Imagine- se que o dinheiro sai hoje, não sabemos quando exactamente é que ele cai na conta e isso complica- nos a vida. Mas pagamos sempre tudo a todos.
O clube reclama uma dívida de cerca de 200 mil euros.
Não conheço um clube em Portugal com um protocolo tão vantajoso com a sua SAD como a UDL. Tudo começou bem, com total cumprimento das obrigações. Mas depois da Operação Matrioskas começaram as dificuldades inerentes e tínhamos de escolher: ou se faz uma equipa com hipóteses para subir de divisão e com a subida irá ganhar tanto a SAD como o clube – em termos de formação, porque há dinheiro que vem da Federação e da UEFA – ou se paga ao clube e não apostamos na subida. O dinheiro não chegava para tudo e tivemos de escolher. Lamentamos que não haja sensibilidade do clube, que é nosso parceiro, para perceber as dificuldades que a SAD, da qual o próprio clube, às vezes, se esquece que faz parte, atravessa. Se não tentássemos subir ia-nos ser cobrado pelos adeptos. Tentámos explicar ao clube. Não esperamos compreensão de quem nos fornece os serviços, mas é legítimo que o parceiro, que não é obrigado a investir para a subida e vai beneficiar disso, compreenda. É dar tiros nos próprios pés. Se acaba a SAD é um problema para todos, não é só para o investidor. É no mínimo estranho que haja ataques e lavagem de roupa suja em público. Não queremos isto. Que fique claro, a SAD é também o clube. Parece que ninguém quer entender isso.
Os treinadores e os jogadores tiveram ordenados em atraso. As dívidas persistem?
Leiria gosta mesmo de boatos. Toda a gente recebeu. Existe uma pequena parte de dívida relativamente a jogadores e equipa técnica, mas está tudo combinado e tratado para liquidar. Os nossos jogadores sabem o que se passa e a maioria entendeu. Se assim não fosse, não acha que se iam todos embora? O Alexander tem conseguido financiamento fora, mas para o conseguir trabalha muito. E garanto que não houve um único jogador abandonado.
E luz e água cortadas?
Temos à volta de 20 casas arrendadas. Às vezes havia atrasos de pagamento, mas até por desatenção dos jogadores. Mas assim que havia um corte imediatamente era reposto. Não sei por que razão um assunto simples, que pode acontecer a qualquer família, é levado como se fosse o fim do mundo.
O clube enviou um pedido à SAD a pedir uma série de documentos sobre toda a actividade. Estão aptos a dar uma resposta capaz?
Tudo gira a volta do dinheiro. É só isso. Esse pedido é caricato, não sei qual é o real objectivo. Entre as sedes do clube e da SAD há uma distância de menos de 100 metros. Têm tudo à disposição para consultar. Se houvesse vontade vinham aqui. Mas temos tudo em ordem. Poderá haver documentos que ainda estão com a Polícia Judiciária, mas isso está a ser tratado com o advogado. Não há nada ilegal. Quando a actual Direcção tomou posse pela primeira vez, mandámos uma carta a pedir a nomeação de representantes do clube na administração da SAD. Se eles nomeassem estavam a par de tudo. A justificação para não o fazer foi que se houver problemas na SAD, os administradores são também responsabilizados e eles têm bens em Portugal. Compreendo, mas podiam ter pessoas na SAD de forma oficiosa. Pelo menos poderiam propor isso. Isto demonstra falta de confiança. Devia analisar-se o que se tem a ganhar e a perder com o confronto. O problema é a dívida? A SAD sempre disse que reconhece a dívida. Pedimos compreensão, porque o clube é a única parte a quem podemos fazê-lo. Até já se falou anteriormente em ir pagando uma parte mais pequena mensalmente, e no dia em que o investidor tiver mais capacidade poderá pagar de novo. Ou em troca deste dinheiro construir um campo ou algo assim.
O clube diz que também nunca nomearam um coordenador para os juniores.
É verdade, mas no protocolo isso era opcional e a SAD tinha uma série de outros assuntos para resolver. O clube também poderia ter ido buscar alguém. Agora, se não houver investimento, há um risco da equipa de juniores descer de divisão – e espero que não aconteça para bem da UDL. Quando dizem que a equipa serviu de “barriga de aluguer” a outros clubes, é preciso ter noção que nem sempre se conseguem resultados apenas com os jogadores da casa e é muitíssimo importante não descer de divisão, porque depois perde-se a referência e os jogadores mais jovens não quererão vir para os iniciados e juvenis. Independentemente de tudo, um júnior com qualidade terá sempre lugar nos seniores, porque os adeptos identificam-se com eles e sai mais barato à SAD, pois é mais caro ter jogadores de fora de Leiria. Não estamos a representar a Rússia nem a Moldávia, mas sim a UDL e não é normal usar a SAD como bode expiatório de tudo e mais alguma coisa.
Este final de época trouxe também dois jogos à porta fechada…
O castigo relativo ao jogo contra o Marinhense da época 2017/18 foi um assunto incrível, mas vamos lutar até às últimas consequências. Não falsificámos nada. Tratou-se de um erro técnico que o médico que fez os exames assumiu. A decisão da Federação Portuguesa de Futebol foi lamentável e só veio castigar os adeptos da UDL e influenciar negativamente a nossa luta.
Uma das perguntas que se faz todos os finais de época é: será que os ‘russos’ vão continuar?
É normal que se pergunte, muita gente iria embora e desistiria, mas o Alexander não. E já se trabalha arduamente na preparação da próxima época. Haverá entradas e saídas de jogadores. É normal. Alguns já deram muito e têm agora novos voos e merecem-no. Quase todos os titulares são pretendidos. Não vão todos embora, mas não podemos travar os jogadores quando têm uma boa oportunidade e até ajudaram a equipa. A UDL pode não ter subido de divisão, mas os jogadores valorizaram-se. Aproveito para apelar às antigas glórias da UDL para se juntarem e ajudarem a mediar o que se passa entre o clube e a SAD, porque é a UDL globalmente que sai a perder. O nosso objectivo é simples: chegar ao topo e lucrar com isso.
Sergiu Renita, 41 anos, está em Portugal desde 2001. Formado em jornalismo, foi repórter e jornalista desportivo num canal de televisão na Moldávia. Veio a Portugal visitar uns amigos e decidiu ficar seis meses. Apaixonou-se pelo país e nunca mais voltou. Em Portugal, foi jornalista em jornais para imigrantes russos, criou uma revista de desporto e organizou concertos para a diáspora de países do Leste. Como tinha contactos no futebol por ter sido jornalista desportivo colaborou com algumas agências de jogadores, referenciando atletas. Foi enquanto ‘olheiro’ que conheceu Alexander Tolstikov, que era dirigente num clube russo. Encontraram-se na Turquia e a colaboração perdura até hoje na União de Leiria.










