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Home Opinião

Um certo ideal feminino e chocolates Regina

A minha filha deixa-me a mala de mão imaculada e esforço-me muito para a manter assim durante algum tempo

Helena Rafael, assessora de imprensa Helena Rafael, assessora de imprensa
9 de Setembro de 2021
em Opinião
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Helena Rafael, assessora de imprensa
Helena Rafael, assessora de imprensa9 de Setembro de 2021

A minha mãe transportava consigo um ideal feminino, pouco convencional apesar de corresponder a um certo estereótipo de mulher bonita.

Alta, elegante, loura e de olhos azuis. Tendencialmente meiga, eventualmente prendada, aparentemente disponível para amar e ser amada.

O olhar por cumprir, a firmeza do passo cujo rumo só ela conhecia e uma rebeldia indómita que se enraizava numa longa linhagem de mulheres fortes, cedo a remeteram para um lugar solitário indecifrável mesmo para os mais próximos.

Cumpriu as convenções expectáveis para uma mulher portuguesa de meados do século XX. Casou, foi mãe, teve um emprego, rodeou-se de um lar.

Mas o aprumo aparente com que sempre se apresentou era traído pelo caos das suas malas de mão. Bolsas de dimensões exageradas cheias de recordações das quais não queria desfazer-se.

Como agendas a transbordar de cartões e pequenos papéis onde registava mensagens crípticas associadas a contactos que registava numa ordem inversa à alfabética.

Ou desenhos infantis quase desfeitos. Ou chocolates Regina que deixava à superfície para serem apanhados por mãos pequenas.

E imagens religiosas, lamelas gastas de comprimidos para as enxaquecas, uma parafernália de símbolos de superstições, amostras de perfumes, páginas de livros soltas, escovas de cabelo, moedas caídas no fundo e fotografias de casas antigas com os cantos gastos de tantas mudanças de porta-moedas.

Um aparente caos onde talvez residisse a sua real identidade.

Passei a infância e a adolescência a tentar dar coerência àquela incompreensível babel onde ela sempre se encontrou e que eu nunca consegui interpretar, mas pouco tempo depois tudo voltava ao seu estado inicial.

Como uma espécie de resposta a essa aparente desordem, procuro, por defeito, organizar a minha vida em bolsas infinitas. Uma ordem também ela codificada de tudo o que tenho de transportar diariamente comigo.

Um irredutível peso identitário que só eu compreendo e onde talvez secretamente me encontre.

A minha filha não conheceu a minha mãe e eu pouco lhe revelei deste ritual que acompanhou os meus primeiros anos de vida, mas de há uns meses a esta parte passou a ser ela, espontaneamente à minha chegada a casa, a organizar o aparente caos de bolsas que encontra na minha mala de mão – bolsas com máscaras contaminadas, bolsas com máscaras descontaminadas, desinfectantes mais e menos agressivos, bolsas com desenhos infantis gastos, bolsas com comprimidos para as enxaquecas, bolsas com guardanapos e papéis antigos com recados e citações, bolsas com fotografias com os cantos gastos, bolsas com papéis de assuntos tratados e por tratar…

A minha filha deixa-me a mala de mão imaculada e esforço-me muito para a manter assim durante algum tempo.

Embora, regra geral, acrescente depois de mais outra purga dela uma nova bolsa ao já longo rol que enche a mala que me entorta o ombro. O que ela não compreende.

Deixa-me sempre vazia, contudo, a bolsa onde guardo os chocolates Regina.

Tópicos: Helena Rafaelopinião
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