
Na gare, o Sol brilha nos vidros e nos braços de metal que encimam a estação, e faz o jogo do esconde com as árvores e as esquinas altas dos prédios em frente, mas um ventinho frio pede a gola levantada e o abraço ao saco que ajude a não perder o calor do corpo acabado de sair do carro.
Faltam alguns minutos para a hora da partida e o final da tarde é tranquilo nas conversas. Um homem recolhe embalagens vazias para as fazer trocar por alguns cêntimos, uma rapariga encosta-se, imóvel, ao peito do namorado, uma filha, sem sorrisos, acompanha o pai que caminha olhando sempre em frente e a senhora sentada ao meu lado detém-se na selfie tirada pouco antes.
O chão da gare, a necessitar de limpeza, contrasta com a lua quase cheia que já impera num céu aberto de fim de tarde. Minutos antes da hora chega o comboio, e penso na pontualidade que nos era em tempos tão avessa, bem como no embarque tranquilo, sem empurrões ou pressas, e com gentilezas e ajudas a quem desce ou sobe com mais dificuldades.
Pouco depois começa o embalo da viagem de duas horas e meia, primeiro a ver o mundo correr ao contrário e à luz do dia, e logo a seguir apenas as luzes e a Lua, quase cheia, balouçando na janela de um lado para o outro ou para baixo e para cima, ao sabor das ligeiras curvas da linha.
Atrás de mim começa uma viva conversa em espanhol, sem que se perceba se relata um dissabor ou narra um entusiasmo, e o revisor escolhe pedir o documento nessa língua, talvez pelo hábito de não ser entendido em português.
Ao meu lado mostra-se o passaporte e começo a divagar sobre a origem deste turista que trabalha no portátil, tal como eu.
Duas filas à minha frente, uma guerra de dinossauros no minúsculo parapeito da janela chama-me a atenção para uma cabecinha gloriosamente encaracolada de ruivo que um pouco depois correrá para a frente e para trás no corredor, acompanhada por três crianças mais velhas; chegada a hora de jantar, sentam-se em lugares próximos, e duas jovens mulheres distribuem alguma comida, parecendo serem famílias que talvez viagem juntas.
No banco da frente, um rapazinho fica depois a mostrar ao pai as imagens que procura num tablet e consigo ver a da estação de onde saímos, e a de uma camisola nº 7. Falam alemão.
Do outro lado do corredor, uma figura feminina a que só vejo as mãos e um pouco de cabelo, abre uma caixa de violino, retira uma chave e fecha a caixa. Imagino-a, talvez de vestido preto, em concerto.
Chegados a Coimbra B sai uma das famílias, e nos monitores da carruagem passam os primeiros anúncios de Natal que vejo este ano; na estação de Aveiro irá sair a violinista. Tempo depois, o comboio abranda e vai entrando pelo mar de luzes que brilham no ar e na água pontilhada de pequenos barcos e atravessada por pontes, enquanto cruzo a que me leva ao destino sabendo que, do outro lado da janela, o cheiro do ar será maravilhosamente familiar.
Viajo para um enterro e encontrarei a tristeza de muitos dos meus, mas também os beijos e os abraços bons do reencontro.
É Sábado, e a vida acontece assim.







