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Home Opinião

#vaificartudobem?

Certamente que o nosso optimismo é bem-intencionado e generoso. Mas será consequente? Será realista?

Paulo Kellerman, escritor Paulo Kellerman, escritor
30 de Abril de 2020
em Opinião
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Paulo Kellerman, escritor
Paulo Kellerman, escritor30 de Abril de 2020

Disseram-me, há uns anos, algo que nunca mais esqueci. Uma amiga vivia um período particularmente difícil que incluía o fim de uma relação, a perda do emprego e a morte dos pais; tentava apoiá-la no que podia e ia repetindo algumas banalidades em que genuinamente acreditava: que as coisas haveriam de melhorar, que tudo acabaria por se compor e correr bem.

Num esforço para contrariar o pessimismo depressivo e catastrofista que lhe corroía os dias, fui mantendo a minha postura de esperança e positivismo.

Até que um dia ela me disse aquilo que nunca mais esqueci: “O teu optimismo até mete nojo.”

Muitos meses passaram e a vida compôs-se. Mas fiquei a perguntar-me se o excesso de optimismo poderia, afinal, incomodar. E hoje acho que sim, que pode: quando se trata de uma atitude acéfala e irracional, próxima da fé cega; quando é manifestado de maneira rotineira e distraída, automática, sem atenção nem convicção; quando serve apenas para iludir e pacificar a consciência, para demonstrar um cuidado momentâneo pouco sincero.

Tal como quando perguntamos se está tudo bem ao vizinho que encontramos no elevador; é uma forma de cortesia, uma simpatia social; mas na maioria das vezes não nos interessa realmente a resposta.

E se por acaso o vizinho respondesse: “Não, está tudo mal, só me apetece morrer…”?

Diríamos com grande atrapalhação: “Pois, pois…”; e aguardaríamos que a porta do elevador abrisse, decididos a começar a usar as escadas com mais frequência.

Certamente que o nosso optimismo é bem-intencionado e generoso. Mas será consequente? Será realista?

Neste tempo atroz e desconcertante que vivemos vamos repetindo dezenas de vezes por dia que vai ficar tudo bem.

Dizemo-lo a nós próprios e a todas as pessoas com quem nos cruzamos; escrevemo-lo em múltiplas publicações que fazemos nas redes sociais; e até o desenhamos com letras bonitas em folhas de papel que colamos nas janelas.

É um optimismo positivo e simbólico, uma forma de aproximação e de união; a exteriorização de um desejo e de uma crença, uma tomada de posição metafórica. E sentimo-nos bem por o fazer. Mas será que vai mesmo ficar tudo bem?

Alguma vez pensamos nisso? Porque se pensarmos, teremos de concluir que não.

Não vai ficar bem para as pessoas que morrem; não vai ficar bem para os familiares e amigos das pessoas que morrem (e das quais nem se podem despedir); não vai ficar bem para as pessoas que perdem o emprego ou os seus negócios; não vai ficar bem para quem tem de lutar com dificuldades económicas, com incertezas e medos, com depressões e desesperos; não vai ficar bem para o vizinho que tem vontade de dizer “Está tudo mal, só me apetece morrer…”, mas que se mantém em silêncio.

Todos queremos que fique tudo bem para toda a gente.

Todos queremos tranquilizar quem nos rodeia, dizendo-lhes que vai ficar tudo bem.

Todos queremos que nos tranquilizem, dizendo-nos que vai ficar tudo bem.

Todos somos optimistas.

Todos corremos o risco de começar a meter nojo.

Tópicos: opiniãoPaulo Kellerman
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