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Home Opinião

Violência obstétrica

Ao lê-la, perguntei-me quem pratica, afinal, esta violência obstétrica. Respeitando em absoluto a condição de grávida, que muito admiro, de tão boa que foi para mim a tripla experiência que tive, dei por mim a pensar que afinal há muitas grávidas a praticá-la. Ao quererem patologizar este seu processo natural.

Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora
24 de Abril de 2026
em Opinião
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Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora
Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora24 de Abril de 2026

Fez agora um ano a lei que tem por objeto a promoção dos direitos na preconcepção, procriação medicamente assistida, gravidez, parto, nascimento e puerpério, e que define a violência obstétrica como “a ação física e verbal exercida pelos profissionais de saúde sobre o corpo e os procedimentos na área reprodutiva (…) que se expressa num tratamento desumanizado, num abuso da medicalização ou na patologização dos processos naturais”.

Ao lê-la, perguntei-me quem pratica, afinal, esta violência obstétrica.

Respeitando em absoluto a condição de grávida, que muito admiro, de tão boa que foi para mim a tripla experiência que tive, dei por mim a pensar que afinal há muitas grávidas a praticá-la. Ao quererem patologizar este seu processo natural.

Logo de início, na procura de baixas médicas sem que objetivamente haja qualquer critério médico para tal. E no final, ao quererem, e diria até imporem, cesarianas, ao invés de se empenharem no tal processo natural de que a lei fala. Porque o parto vaginal é muito melhor para ambos, grávida e bebé. E a cesariana deve ser, sempre, último recurso, decidida à luz de critérios clínicos, validados cientificamente.

Da medicalização, também critérios clínicos a definem, para segurança da grávida e do bebé, quando é necessário desencadear ou acelerar o parto, por patologias já conhecidas ou outras que surgem periparto.

Da desumanização, o problema é, no mínimo, bidirecional. É o cansaço extremo e a falta de condições de trabalho adequadas que muitas vezes desumaniza os profissionais de saúde. São vários os estudos que apontam estes fatores como os principais. Não devia acontecer. Não. Mas acontecem. Porque os profissionais de saúde também são pessoas.

Mas algumas pessoas que os procuram parecem por vezes disso se esquecerem. E exigem. Impõem. Apontam o dedo. Porque estão um pouco mais tempo à espera de serem atendidas, esquecendo que não são as únicas que esperam. E que outras pessoas podem ter problemas mais graves, que carecem de atendimento mais prioritário. Não é isto também desumano?

Para com o profissional de saúde, e para com os demais utentes? Porque é tudo isto, em simultâneo, que o profissional de saúde tem que gerir, incluindo ainda as condições não ideais em que todos estão, profissionais e utentes, para prestar o melhor serviço a todos, a cada momento, de modo a obter o melhor resultado de saúde para todos, esquecendo-se muitas vezes de si próprio.

Por isso, o problema da desumanização é, no mínimo, bidirecional.

Claro que há maus profissionais, porque os há em todas as áreas, e a Obstetrícia não é excepção. E são profundamente lamentáveis todos os problemas, graves, gravíssimos, causados por esses maus profissionais. Que devem, obviamente, ser punidos.

Mas diz o ditado que a excepção confirma a regra. E por isso, sim, os profissionais de saúde que escolheram esta profissão, escolheram-na por se quererem dedicar à saúde obstétrica, não por se quererem dedicar à violência. Pensar isso é, no mínimo, absurdo.

Tópicos: opiniãoSónia Pereira
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