Desde que foi criado, em 1987, o programa Erasmus já envolveu mais de 16 milhões de estudantes, professores e técnicos, promovendo a aproximação entre universidades e outros estabelecimentos de ensino superior por toda a Europa, favorecendo inúmeras oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional para quem nele participa.
Para muitos alunos, o Erasmus traduziu-se mesmo numa mudança radical de vida. Significou trocar de país, alcançar o emprego de sonho e até mesmo encontrar o amor e constituir família para lá da fronteira, como testemunham vários estudantes da região de Leiria.
Rendida ao amor em território espanhol
Inês Lopes, de 23 anos, natural de Pombal, estudava Ciências da Comunicação no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, quando, no segundo ano do curso, entre Fevereiro e Junho de 2024, decidiu participar no programa Erasmus. “O meu objectivo era viver noutro país, para conhecer outro sistema de ensino, mas também viajar, conhecer outras pessoas, ter outras vivências [LER_MAIS]além dos estudos. Sair da minha zona de conforto”, conta Inês.
Foi com estas metas em vista que chegou à Universidade de San Jorge, em Saragoça. E foi também nesta instituição, em Espanha, que conheceu, através de uma amiga comum, o francês que, ao longo da estadia, se tornou o melhor amigo. Tal como Inês, Théo Simon estudava Comunicação, em Nantes, e estava a realizar Erasmus na Universidade de San Jorge.
“Terminámos o programa, mas continuámos sempre a falar-nos, mesmo à distância. Há um ano, ele veio a Portugal com um amigo e começámos a namorar”, conta Inês. Desde então, tornaram-se inseparáveis e vivem ambos em Lisboa. Théo começou a trabalhar em marketing, enquanto Inês frequenmestrado em Comunicação, Estratégia e Liderança na Universidade Católica.
“O Erasmus deu-me um namorado e deu-me mais autonomia. Aprendi a desenrascar-me. Melhorei o meu inglês, porque lá só tinha amigos internacionais. Aprendi a lidar com as saudades de casa e a gerir melhor o meu dinheiro”, salienta Inês. Além de ter cumprido os objectivos iniciais: viajar muito e contactar com uma forma de ensino diferente, mais informal, que valorizou o seu currículo.
Théo partilha da perspectiva da namorada. Por um lado, mostrou -lhe que, apesar das diferenças culturais, quando colocadas na mesma sala de aula, pessoas de diferentes países esquecem conflitos, tornam-se amigos e até podem conhecer um amor. Além de lhe ter permitido conhecer e apaixonar-se por Portugal, um País com “calor humano e alegria”, Erasmus permitiu-lhe conhecer “uma pessoa muito especial”.
“Ela conseguiu preencher todas as minhas falhas, todas as minhas frustrações e dá-me todos os dias uma alegria que não sei explicar. Graças a ela, vivo agora em Lisboa e vou descobrindo aos poucos o País. Ela faz-me descobrir a cultura, a gastronomia, a música, a simplicidade de viver à portuguesa.”
Rumo à Noruega para uma profissão valorizada
Marina Reis, de 33 anos, natural de Monte Real, estava a frequentar o último ano do curso de Enfermagem na Escola Superior de Saúde de Leiria, em 2015, quando, por incentivo do próprio Instituto Politécnico de Leiria, decidiu realizar Erasmus, na Noruega. “Pela experiência, pelo desenvolvimento pessoal, para ter um termo de comparação com o que se faz em Portugal”, contextualiza Marina.
O último estágio acabou por ser feito no serviço de doenças infecciosas no Hospital da Universidade de Oslo. Findo o estágio, o feedback foi bom e disseram-lhe que, se aprendesse norueguês, quando voltasse de Portugal teria emprego garantido.
Chegada a Leiria, pesquisou possibilidades através da internet e encontrou uma empresa de recrutamento que garantia curso de norueguês e tratava da burocracia e de toda a legalização para trabalhar seis meses na Noruega. Não hesitou. Acabou por trabalhar em lares de idosos, também em meio hospitalar e foi num dos lares que foi desafiada a assumir cargo de enfermeira-coordenadora.
Entretanto, o namorado, natural de Aveiro, também se mudou para a cidade de Drammem, onde ambos passaram a viver. Recentemente, o agregado multiplicou-se com a chegada da filha. E o negócio do companheiro, que é gerido em sociedade com um norueguês, está a correr bem, na área da mobilidade eléctrica, conta a enfermeira.
Sobretudo com o nascimento da filha, Marina confessa já ter equacionado regressar a Portugal, onde teria uma rede de apoio familiar. Mas, a auferir 3.800 euros mensais, reconhece que não teria por cá a mesma valorização da sua profissão. “E na Noruega há incentivos à progressão na carreira. Estou a tirar curso de mestrado de Gestão em Saúde para poder ser chefe de serviço”, exemplifica Marina. “E com a crise económica em Portugal, a motivação para regressar é zero”, comenta a enfermeira.
De Leiria partiram 564 em 2025
Depois da pandemia, os números têm vindo sempre a crescer. Do Instituto Politécnico de Leiria, para outros estabelecimentos de ensino superior da Europa, partiram, em Erasmus: 421 estudantes (2023), 446 (2024) e 564 (2025). No sentido inverso, chegaram a esta instituição, através do mesmo programa, 568 (2023), 424 (2024) e 535 estudantes (2025) vindos de diferentes países europeus.
Pedro Assunção, vice-presidente do IPL e responsável pela área Internacional/Mobilidade, sublinha que o programa Erasmus tem uma importância central na estratégia de internacionalização desta instituição. “Em primeiro lugar, porque é o único programa financiado que permite desenvolver acções de mobilidade internacional, envolvendo estudantes, professores e pessoal técnico e administrativo. Neste aspecto, o programa Erasmus contribui de forma transversal para a internacionalização de toda a instituição, aumenta a sua relevância na Europa e sobretudo promove o desenvolvimento pessoal e a cidadania europeia no seio do IPL, em linha com a estratégia de formação integral e valorização das pessoas”, aponta Pedro Assunção.
“Em segundo lugar, de uma forma indirecta, promove a criação de redes colaborativas com instituições estrangeiras, gerando impacto na internacionalização da instituição a outros níveis, como por exemplo na investigação e inovação”, prossegue o vice-presidente. Além disso, “o IPL é hoje uma instituição multicultural, em boa parte devido a estudantes Erasmus de outros países que escolhem a nossa instituição para realizar estudos em mobilidade”.
Já para os jovens, “o programa Erasmus promove as suas primeiras experiências interculturais, ajudando a desenvolver competências pessoais, crescimento da autonomia, adaptabilidade e capacidade de trabalhar com pessoas de diferentes origens”, o que lhes traz “vantagens competitivas ao nível do seu currículo, com reflexo directo nas perspectivas de emprego”, constata.
“Em termos globais verificamos que cada vez mais estudantes conhecem e manifestam interesse em realizar mobilidades Erasmus em diversos países europeus. Os maiores constrangimentos resultam das limitações no financiamento, ainda assim o IPL tem aumentado significativamente as oportunidades de mobilidade em toda a instituição através da Universidade Europeia (RUN-EU), que integra com mais nove instituições académicas de diferentes países europeus e que opera no âmbito do programa Erasmus”, explica o responsável.
“A RUN-EU, sobretudo neste segundo ciclo de financiamento (2024-2027), oferece diversas oportunidades a estudantes, professores e pessoal técnico e administrativo para desenvolver acções conjuntas nos diversos domínios de actuação do IPL, que vão desde a formação de curta duração, colaboração em projectos de I&D, passando pelo desenvolvimento de modelos de governação institucional a nível europeu, empreendedorismo e ligação à sociedade”, realça Pedro Assunção.
“Tem havido uma dinâmica crescente dentro do IPL no sentido de participar, de forma consistente, no desenvolvimento da RUN-EU, e isso faz-se sobretudo envolvendo mais estudantes em maior número e maior diversidade de actividades de internacionalização”, aponta o vice-presidente. Também a relevância do IPLeiria a nível europeu tem aumentado com a RUN-EU, refere o responsável, que exemplifica: “temos tido estudantes do IPLeiria seleccionados para participar na European Student Assembly, que se realiza em Estrasburgo, reunindo estudantes provenientes de universidades de toda a Europa”.
João Tanoeiro, de 27 anos, natural da Chamusca, licenciou-se em Biologia Marinha e Biotecnologia na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, em Peniche, e foi nesta mesma escola do IPL que seguiu mestrado em Biotecnologia e Recursos Marinhos. Durante o mestrado, teve oportunidade de frequentar o RUN-EU, programa de mobilidade que lhe permitiu passar diferentes semanas em instituições de ensino de vários países da Europa. Irlanda, França, Hungria e Holanda foram alguns dos territórios que visitou neste âmbito.
Há, no entanto, vantagens a reter. E o vencimento é uma delas. No final do doutoramento, é expectável que aufira cerca de 3.000 euros mensais, que podem subir para cerca de 5.000 à medida que for aumentando a sua experiência.










