Aos 83 anos, a voz já não é o que era, mas Lelita não desanima e continua a cantar. Nos anos 90, era uma figura reconhecida da música ligeira ouriense e o seu programa na rádio ABC Portugal, em que se introduzia com a famosa frase “Olá, olá, bom dia, bom dia”, era um êxito local.
Entretanto, os tempos mudaram. O programa e a actividade associativa mantêm-se, mas Lelita já vê o futuro com incerteza. A 19 de Setembro, sábado, será o centro de uma homenagem musical com o grupo Victoria, no Teatro Municipal de Ourém (TMO), com o título Olá, Olá, Boa Noite, Boa Noite. Continua a pintar o cabelo de cor-de-rosa.
Recebe-nos na sua casa, na Atouguia, onde vive com o marido, já acamado. Uma casa centenária recuperada, recheada de uma densidade de cores e memórias: por todos os cantos e paredes há fotografias, quadros de autoria própria, lembranças de carreira, viagens e conquistas. A temática de África revela-se um padrão óbvio nos quadros, resultado de uma parte da vida passada em Angola. Depois, há as filhas – quatro – e os netos, tema constante nas suas conversas. “Não sou rica, nem sou pobre. Sou feliz”, resume, sempre a sorrir, com o espírito jovial que a caracteriza. “Sou eu própria”.
Um sonho em África
Maria Manuela Jorge nasceu em Ourém, onde viveu com a avó e as tias até aos 20 anos, altura em que se casou com o marido, Joaquim, e rumou a África. A avó é a sua figura de referência, uma mulher carinhosa que a incentivava a cantar.
A vida em Angola foi feliz. Já o regresso a Portugal traumático, repleto de medos e alguma confusão. A família reergueu-se, nasceu a quarta menina e Lelita começou a trabalhar em vários escritórios, valendo-se do curso de dactilografia tirado em África. Foi também aí que arrancou a sua carreira musical, com o Chorus Aurius, e, mais tarde, a Orquestra Típica, grupos com os quais viajou pela Europa e pelo Brasil.
Em 1989, tornou-se radialista, apresentando o programa “Olá, Olá, Bom Dia” aos domingos de manhã, onde recebia chamadas dos ouvintes. Um êxito no seu tempo, o programa sobrevive aos sábados, ainda com ouvintes habituais.
O futuro para Lelita é hoje mais incerto, admitindo desconhecer por quanto tempo mais terá autonomia. A energia é a mesma de outrora, mas a idade vai pesando de diferentes formas. As filhas “guerreiras” e os netos são a sua alegria e há um amor intenso pela família e pela memória em cada parede da sua casa.
Duas gerações
A Albardeira Associação Cultural decidiu agora homenageá-la com um espectáculo, este sábado, 19, que recupera o seu portefólio musical, com o apoio do grupo Victoria. Humilde, diz que não percebe como rapazes tão jovens a descobriram. “Vai ser muito engraçado”, afirma.
Pedro João Santos, director artístico do espectáculo Olá, Olá, Boa Noite, Boa Noite, lembra-se de ir ao estúdio da rádio ABC Portugal com o pai e ver Lelita, assim como em festas populares, mas só recentemente é que teve noção da dimensão do nome da artista e radialista durante os anos 90. Conhecida além do concelho de Ourém, lançou cassetes e CDs de música ligeira, tendo feito espectáculos no Brasil. “Por todo o país há estas figuras com capacidade de mover multidões, mas não se fala nelas porque representam a música popular ligeira e isso é desprestigiante”, constata.
A ideia de uma homenagem, acompanhada da recolha e digitalização de todo o acervo musical e radiofónico de Lelita, surgiu há cinco anos, a partir da Albardeira Associação Cultural, que Pedro João Santos integra. A ideia passou por várias fases, até surgir o conceito do espectáculo com o grupo musical Victoria, recuperando e reinterpretando as músicas mais emblemáticas da artista.
Um documentário
“É uma homenagem para a Lelita, por ela própria”, explica. “O público pode esperar uma grande celebração, que tenta combinar as várias dimensões da Lelita, em particular como intérprete. Podem esperar uma provocação musical.” Para já, a promoção do espectáculo está a ter boa recepção nas redes sociais, constatando-se que a homenagem peca por tardia.
O trabalho de documentação e arquivístico não ficará por aqui. Está ainda em curso a realização de um documentário sobre a vida de Lelita, que se espera poder ser exibido em Ourém e noutros locais onde tenha deixado marca. A digitalização das suas músicas vai permitir que permaneçam acessíveis ao público numa plataforma online. Também os seus programas de rádio ficarão para a história, como o célebre episódio em que anunciou o fim da rubrica porque as pessoas estariam saturadas, recebendo dezenas de telefonemas a contestar o cancelamento.
“É uma pessoa inspiradora, um exemplo de regeneração de alguém com uma vida complicada e que esteve sempre lá para os outros, abdicando do ego”, frisa Pedro João Santos, salientando também as capacidades de gestão de marca da artista, numa altura em que tal não era tão comum. “Esperemos ter casa cheia e que a Lelita fique feliz”.










