
Numa bela planície verdejante, fresca e límpida morava uma bela aldeia de casas cuja característica principal era a de que todas as moradias eram cobertas por brilhantes, luzidios, transparentes e espelhantes telhados de vidro.
Vivia-se de forma calma, longe de trevas, de escuro, de negro e de escuridão. Durante o dia, a própria luz natural entrava pelas casas adentro flechando o seu interior.
Durante a noite, a luz artificial de candeeiros e afins feria, embora que de forma subtil e fraca, a parte interna das habitações. Manter inalterável a aldeia de casas de telhado de vidro era uma promessa há muito selada, em páginas de honra e obediência, aos antepassados dos que agora viviam por lá.
Nada tinha conseguido alterar aquela dinâmica de construção de telhados de vidro transparentes, incolores, tal qual o rio de águas claras que corria, calma e intocável, num leito de margens cheias de vida, de flores, mas de completa ausência de pedras.
Na verdade, para esta aldeia, a pedra era, claro está, o maior inimigo. A profissão de guardador de pedras, criada dada a necessidade de se manterem seguros os telhados de vidro e os habitantes da aldeia, era das mais prestigiadas e das mais procuradas, dada a nobreza e o estatuto do ofício.
Conhecendo o comportamento das estações do ano, os guardadores de pedras sabiam como manter a salvo a aldeia de telhados de vidro e, quando o outono, o inverno, a primavera e o verão deixavam de saber o que vestir por causa das inconstantes alterações climáticas, a aldeia ficava aclamado a salvo com base na intuição, no pressentimento, no instinto e, também, no amparo da enorme lona que, protetoramente, cobria os ditos telhados.
Eis, no entanto, que um dia, um rumor estranho trazido por um vento forte e cortante, assolou a aldeia. E, não, não era trazido pelo sopro forte, cortante e gélido de um inverno manhoso e traiçoeiro. Era um rumor estranho trazido por um sopro de uma voz acutilante e que cortava até o diamante mais difícil de lacerar. Era um rumor que colocava a nu a desonestidade do mais prestigiado guardador de pedras, o mais aclamado e, por várias vezes, distinguido com o mais alto galardão da aldeia das casas de telhados de vidro.
Ganhara o Globo de Vidro de Ouro, um prémio que marcava uma carreira incólume, íntegra e honesta. Era um rumor que passou a ser uma confirmada verdade. O mais valorizado guardador de pedras, ao contrário de reduzir as ditas à poeira dolente e inofensiva, como era a sua função, vendia-as, à revelia, como armas para serem arremessadas por aqueles que amavam a guerra e odiavam a paz.
Talvez tenha sido aqui que tenha surgido a célebre expressão, a que diz que “Toda a gente tem telhados de vidro!”.
É que, daquela vez, um dos “telhados” estilhaçou e desabou, não com a força das pedras, mas com o peso e força astronómicos de palavras lançadas por uma voz ventosa, gélida e cortante que lona nenhuma conseguiria, alguma vez, travar.
*Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990








