
Há enterros que não acabam, ficam a meio, como uma frase que se interrompe porque quem a dizia se esqueceu da palavra. O Lapedo é um desses. Não é uma ruína, é uma pausa. Há vinte e sete mil anos que alguém ali espera que acabemos a frase.
Fica em Leiria. Para lá chegar, é preciso descer:
descer para dentro da terra, para dentro do calcário húmido do Vale do Lapedo, onde em 1998 a enxada tropeçou num osso pequeno. Era uma criança. Tinha quatro anos quando morreu, há vinte e sete mil anos, chamaram-lhe o Menino do Lapedo. Ficou ali, quieto, com as pernas de Neandertal e o queixo de homem moderno, à espera que alguém percebesse o que ele era: o primeiro leiriense de que há memória.
Agora, vinte e sete mil anos depois, Bruxelas lembrou-se dele e deu ao Abrigo do Lagar Velho o Selo de Património Europeu, com a explicação oficial de que aquele buraco na rocha teve um impacto profundo na história e na cultura da União Europeia. Na língua do carimbo, quer isto dizer que o Menino passa, enfim, a ser europeu.
Nós, que moramos a dez minutos do Lapedo, sofremos da doença crónica da província portuguesa: só nos convencemos de que temos alguma coisa quando vem alguém de fora dizer que temos. O Menino esperou vinte e sete mil anos. Nós esperámos que um funcionário belga nos desse licença para gostar dele.
Foi assim com o Teatro José Lúcio, que só agora é monumento municipal depois de mais de um século a ser a sala da cidade. É assim com os nossos músicos, que precisam de ir à Polónia para que Leiria os oiça. O Menino esperou vinte e sete mil anos por um passaporte. Nós esperámos vinte e sete mil anos para nos orgulharmos dele.
Fui lá no domingo, não há nada de europeu no Lapedo, há silêncio, há a ribeira a correr com pressa nenhuma, há o vento que entra no abrigo e sai com frio. O que lá pesa é o que não está lá. Um nada do tamanho de uma criança de quatro anos. Não se vai lá para tirar uma fotografia, vai-se lá para pôr o joelho no chão. Só de baixo, com a cabeça mais perto da terra que do céu, se vê o que ficou.
De joelhos, vê-se o berço: a criança não foi ali posta por acaso, alguém a deitou com cuidado, com ocre vermelho em volta do corpo, com uma oferenda. Alguém, há vinte e sete mil anos, fez o gesto mais humano que existe: protegeu do esquecimento alguém que amava. Essa é a nossa primeira obra de arte. Antes do Castelo, antes da Sé, antes de qualquer ideia de Portugal ou de Europa, houve um pai e uma mãe de Leiria que não quiseram que o filho desaparecesse.
Foi isso o que a Europa viu. Nós ainda não. Leiria quer ser Capital da Cultura em 2028. Faz bem. Mas a capital já cá está. Está neste vale, com quatro anos de idade, à espera que voltemos a casa.








