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As árvores não falam (mas sentem)

O tempo das árvores não é o nosso tempo. Elas têm outra grandeza que vai muito além do “kronos”. Uma árvore é um ser absoluto e irrepetível

Paulo José Costa, psicólogo clínico Paulo José Costa, psicólogo clínico
27 de Março de 2026
em Opinião
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Paulo José Costa, psicólogo clínico
Paulo José Costa, psicólogo clínico27 de Março de 2026

Tombou o plátano da minha infância. Padeceu perante a tempestade, não resistindo às garras do vento. As árvores são entidades discretas, que connosco partilham, quotidianamente, a mesma vida, a sua e a nossa existência. Este plátano viu-me crescer e brincar debaixo da sua copa, ocultando-me sob as folhas nos meus jogos de berlinde e caricas. Não contive as lágrimas quando o vi derrubado, ali mesmo, onde eu construía as cabanas de índio, sob o seu olhar. Sei que, consigo, aprendi a auscultar a terra. De resto, nele me inspirei para escrever poemas e até um livro, que dediquei ao meu filho.

Respeitar as árvores impõe saber chamá-las, convocando o seu nome. Mas também, intuí-las. Na voragem dos dias, mal damos por elas, tão banal e acostumada é a sua velha presença em nós, e tão incógnita. Nos seus troncos, ramos, folhas e copas, as árvores são uma presença primordial senciente, monumentos vivos que testemunharam décadas ou centenários de revivescência. A roleta da vida e da morte de uma árvore é muito distinta da de um ser humano.

O tempo das árvores não é o nosso tempo. Elas têm outra grandeza que vai muito além do “kronos”. Uma árvore é um ser absoluto e irrepetível. A maior parte das vezes, a indiferença leva-nos a dizer apenas “árvore”, porque também as nossas palavras se foram ou esgotaram, no sopro vazio do desapego. Porém, conjugando a harmonia do seu tempo com o tempo que as escolhe, uma pequena semente ou rebento de árvore, que mais tarde serão uma força imponente, com adaptação à lei natural da sobrevivência, encarnam o vigor da continuidade.

Tal como o plátano da minha infância, algumas das árvores que foram arrancadas, ou feridas pela força inclemente do vento, no Jardim Luís de Camões ou à beira do rio Lis no Marachão, seriam os mais antigos habitantes da cidade, ainda vivos, testemunhas da nossa memória colectiva. Um jardim é um lugar de interpelação da permanência e da finitude. As tragédias alimentam-se umas às outras.

O desmoronamento da estabilidade, a incerteza e o desassossego, exigem um sentido especial perante o tempo e o espaço. Santo Agostinho atribuiu às plantas (e uma árvore é uma planta madura), a necessidade “de que os homens as contemplem, como se graças a um conhecimento do seu ser que o amor guia, experimentassem, assim, qualquer coisa de análogo à redenção”. Porque não sucede o mesmo com os humanos, que se desenraízam, envelhecem e morrem, não despontando de novo com o rebrilhar da Primavera?

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