
Com as temperaturas ainda altas, vemos que o Verão não nos abandonou ainda. Vale, por isso, a pena celebrar o espírito veranil com um jogo ao jeito dos passatempos para fazer na praia.
A minha proposta para hoje é decifrar o ponto em comum nas seguintes frases: “Gostaria de dar os parabéns à Polónia [pelo 80.º aniversário do início da Segunda Guerra Mundial]. É um grande país, com ótimas pessoas.” – Donald Trump.
“Os Beatles eram semi-analfabetos em música. Não sabiam nem tocar violão. Quem compôs as canções [dos Beatles] foi o Theodor Adorno.” – Olavo de Carvalho.
“Por regra, havia humanidade no modo como as penas eram impostas pela Inquisição.” – Gonçalo Portocarrero de Almada.
Para poupar o leitor a virar o jornal de pernas para o ar e procurar as soluções em letras pequenas, eu digo já a resposta. O ponto em comum é a estupidez, seja como origem ou consequência das afirmações.
Alguns casos desta maleita são bem conhecidos: as crónicas declarações de Trump, cheias de inverdades, incorreções e soberba – indo ao ponto de desenhar uma linha num mapa meteorológico só para não reconhecer um erro.
As declarações sobre a Polónia revelam apenas uma falta de conhecimento e de cultura que não seria tolerada a qualquer aluno da escola primária, mas que é corriqueira no presidente dos EUA.
A situação é semelhante em Olavo de Carvalho – considerado mentor e ideólogo de Bolsonaro. O “filósofo” acusa os Beatles e outras bandas rock de “satanismo” nas suas letras, no que revela (além de mau gosto musical) uma visão próxima da Idade Média e da Inquisição.
Inquisição, essa simpática instituição que usava [LER_MAIS] bastante humanidade na forma como torturava pessoas e as queimava em autos de fé (conforme diz Gonçalo Portoc arrero, padre da Igreja Católica).
Estes exemplos de falta de conhecimento, de cidadania e de progresso estão na base de movimentos obscurantistas como os “anti-vacinas”, a xenofobia, e o antifeminismo.
Ignorar evidências, ignorar a realidade, e transformar tudo numa questão de opinião, de debate, de perspetiva política. Mas não, não é verdade.
Da mesma forma que é claro afirmar que a Inquisiç ão era uma barbárie, que os Beatles eram génios musicais e que as vac inas não causam autismo, é óbvio perceber quais são as consequências desta onda de estupidez.
Multidões acossadas, povos exaltados, manipuladores mentirosos alçados a posições de poder… e um reforço do poder económico e da concentração de riqueza de uma elite. E com isso, mais um degrau passado no retrocesso civilizacional.
* O título da crónica é descaradamente roubado à música dos Pinto Ferreira, cujo refrão sublinha o efeito da estupidez: “Maravilhosa estupidez | Porque será que só tu não vês | Esse prodígio extraordinário | Tens o toque de midas | Só que ao contrário”.
Professor e investigador
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990









