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Home Sociedade

Em Campelo, há uma escola onde os peixes desaprendem a ser mansos

Em Figueiró dos Vinhos, as trutas aprendem a caçar e a esconder-se antes de serem devolvidas ao rio. Sem esse treino, quase nenhuma sobreviveria

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
27 de Agosto de 2026
em Sociedade
Rafael Pechorro, Carlos Silva e Andreia Domingues fazem parte do esforço de conservação no Campelo

Rafael Pechorro, Carlos Silva e Andreia Domingues fazem parte do esforço de conservação no Campelo (Foto: Fotografia: JSD)

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No Posto Aquícola de Campelo, em Figueiró dos Vinhos, os peixes crescem dentro de tanques, mas entre seixos rolados, raízes e abrigos, comem presas vivas e quase não vêem humanos.

Estes são passos para um processo de assilvestramento que nasceu da constatação que as reintroduções destes animais nos cursos de água falhavam porque, após serem criados em cativeiro não sabiam como sobreviver.

Durante anos, o ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas largou trutas nos rios portugueses, como medida para repovoar os cursos de água, contudo, os estudos genéticos de acompanhamento demonstraram que quase nenhuma chegava a adulta ou sequer se reproduzia.

Criados em tanques densamente povoados, alimentados a ração e sem um único abrigo onde se esconder, os peixes saíam pouco preparados para a vida em liberdade.

“Não sabem comportar-se na natureza”, resume Andreia Domingues, investigadora que prepara em Campelo, desde 2020, uma tese de doutoramento focada na criação e teste do protocolo de assilvestramento. Este processo, com as devidas ressalvas, é como se a uma espécie dócil, como o cão, fossem dadas competências semelhantes às do lobo, para que sobrevivesse num ambiente selvagem.

Para o CRER – Centro de Reabilitação de Ecossistemas Ribeirinhos, a água vem directamente da ribeira de Alge, nascida no coração da Serra da Lousã, a luz é a do dia e a temperatura não é regulada, para que os animais sintam o passar das estações, e à medida que a data da libertação se aproxima, a ração vai sendo substituída por presas. O contacto humano é mínimo para as tornar o mais desconfiadas possível.

As primeiras trutas assilvestradas foram devolvidas à ribeira de Alge em Outubro de 2024, com mais probabilidades de sobreviver do que as antecessoras. Em Campelo, é a Rafael Pechorro que cabe a manutenção do funcionamento diário das instalações e o suporte aos ensaios. À equipa junta-se ainda a investigadora Márcia Abreu que reforça os trabalhos de campo.

A investigação levou a outra conclusão, que mudou as práticas de piscicultura de água doce. As análises genéticas mostraram que as trutas portuguesas não se cruzam entre bacias e cada rio tem a sua população. Até então, o ICNF, misturava reprodutores de várias origens. Agora, mantém as existências separadas por bacias fluviais.

Neste momento, processa-se uma transição de programas, na linha focada em trutas e salmões, o CRER, financiado pelo programa Mar 2020, chegou à sua conclusão, abrindo caminho para os novos Life Revive e Stock Salmon ao abrigo do programa Mar 2030.

A coordenação científica cabe a Carlos Alexandre e a Pedro Raposo, investigadores nas duas instituições.

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Ajudar os peixes nativos do Algarve

Nas instalações da aldeia do concelho de Figueiró, há ainda outra história de conservacionismo, mais antiga e independente. Em 2008, iniciou-se, pela mão da Quercus, um programa de reprodução de ciprinídeos ameaçados do Oeste e do Sul, como o ruivaco-do-oeste, a boga-portuguesa, a boga-do-sudoeste, o escalo-do-Mira e o escalo-do-Arade.

Durante este esforço de conservação de organismos fluviais que juntou o Aquário Vasco da Gama, o MARE-ISPA e a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, com coordenação científica da investigadora Carla Sousa Santos, foram devolvidos aos rios cerca de 20 mil peixes.

A iniciativa terminou, mas o trabalho continuou, desta vez com o Falanges, programa que lhe sucedeu, financiado pelas Águas do Algarve com o Zoomarine. O foco neste momento, como explica Carlos Silva, biólogo formado pela Faculdade de Ciências de Lisboa e especializado em aquacultura, que, desde 2015, ali trabalha, é o escalo-do-Arade e a boga-do-sudoeste, espécies que têm sido muito castigadas pela seca no sul do País.

O método passa por capturar reprodutores de uma população, que ficam dois a três ciclos no posto e regressam ao rio com a prole. Carlos Silva explica que uma das partes mais importantes do programa é manter a integridade genética das populações de peixes nos seus habitats.

Campelo de portas abertas

Segundo informação facultada pela autarquia, o antigo viveiro de trutas estava sem uso quando a câmara o recuperou. Hoje, concluída a primeira fase da requalificação, o centro recebe visitas e tornou-se destino de trabalho de campo para instituições de ensino superior que o incluem nos planos curriculares.

Nos últimos meses passaram por lá alunos do primeiro ao quarto ano da Escola Básica José Malhoa e jovens do Programa Voluntariado Jovem para a Natureza e Florestas.

A câmara municipal informa ainda que há uma candidatura ao programa Life que permitirá reabilitar o edifício contíguo e transformá-lo no Welcome Center da Aldeia de Campelo, com meios multimédia interactivos.

Tópicos: assilvestramentociprinídeosconservaçãoCRERFigueiró dos VinhosICNFPosto Aquícola de CampeloQuercusribeira de Algetruta
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