Está no segundo mandato da ESTM. Que projectos tem para a escola?
A escola cresceu muito desde o seu início, em 1999. Nesse ano tínhamos 76 alunos, este ano ultrapassámos os 1500. Há um claro crescimento que se deve ao trabalho de todos os profissionais, mas também à conjuntura. A ESTM tem duas grandes áreas: o turismo, que engloba a hotelaria, catering e animação turística; e as ciências do mar, muito relacionadas com a biologia marinha, a biotecnologia e a engenharia alimentar aplicada às questões do mar. Queremos consolidar a escola a este nível, manter, pelo menos, estes 1500 alunos, tentar se possível aumentá-los e procurar oportunidades que podem surgir com as mudanças que estão a acontecer ao nível legislativo e relacionada com o ensino superior. Outro grande objectivo é ter mais alunos internacionais, porque num futuro próximo o número de candidatos ao ensino superior em Portugal vai diminuir. Já temos alunos do Equador, do Brasil ou do Panamá. Há um conjunto de estratégias que o IPLeiria, no seu todo, tem no sentido de atrair mais alunos internacionais para tentar colmatar esse pequeno decréscimo que se prevê que vá acontecer em 2020/21.
Os politécnicos vão poder dar doutoramentos, a ESTM está preparada para esta nova realidade?
Apenas como escola, a ESTM está preparada para avançar com um doutoramento na área das ciências do mar, embora entenda que possivelmente quando os doutoramentos surgirem nos politécnicos não serão dados por escola, mas em conjunto com duas ou três instituições. Na área do turismo temos um centro de investigação – o Citur -, que agora deixou de ser um centro IPLeiria para ser um centro nacional com quase 200 investigadores. Na área do turismo temos condições para avançar, mas em conjunto com outras instituições de ensino e através do Citur.
Que projectos estão para surgir a curto ou médio prazo?
Temos um projecto com a Câmara de Peniche para trazer um centro de Ciência Viva para o concelho e para a criação de um parque tecnológico ligado ao mar, que ficará perto do Cetemares. Existe ainda um trabalho conjunto para a certificação dos destinos de surf, entre outros. Esses projectos estão em desenvolvimento e alguns deles são objecto de candidaturas. De salientar ainda o projecto, apenas da escola, o Smart Idea, que visa tentar ajudar os alunos quando terminam as suas formações a criar start ups em áreas de negócio onde a escola tem know how. Já estamos a apoiar duas empresas, uma ligada à área alimentar e outra à aquacultura, que estão sedeadas na escola. O nosso grande objectivo é tentar motivar os alunos a enveredar pelo em- preendedorismo.
As nossas taxas de empregabilidade são todas acima dos 90%
Em que consiste o parque tecnológico?
Queremos desenvolver toda a área do porto de pesca, onde está o centro de investigação Cetemares, para que toda a tecnologia que existe à volta do mar e dos recursos marinhos possa estar instalada naquele espaço com empresas de ponta que queiram trabalhar e queiram desenvolver produtos nesta área. Logicamente, iremos dar todo o suporte científico, e técnico se for necessário, para que essas empresas se possam instalar e para que, com o nosso know how ao nível da investigação, possam desenvolver novos produtos, ino- var e acrescentar valor aos produtos já existentes.
Qual a taxa de empregabilidade dos alunos da ESTM?
Segundo dados oficiais da Direcção-Geral de Ensino Superior, as nossas taxas de empregabilidade são todas acima dos 90%. Estou convencido que em terminadas áreas ainda é muito maior. Por exemplo, na área da restauração e catering e da engenharia alimentar, o número de pedidos que temos de empresas a solicitar profissionais é muito superior à capacidade de resposta que temos para formar alunos. Depois há toda uma conjuntura, com a publicidade que é feita nos media, nomeadamente as televisões, ao nível de novos chefes de cozinha, o que faz com que os alunos procurem cada vez mais estas áreas e a empregabilidade é fácil, às vezes a ganhar salários iniciais relativamente bons, não só em Portugal, mas também no estrangeiro. Temos várias empresas internacionais a solicitar alunos nossos para irem colaborar não só a nível de estágio mas depois também ao nível de trabalho.
Referiu que há jovens que ganham relativamente bem, mas os recém-licenciados queixam-se de não serem valorizados. Nestes ramos a mentalidade é diferente?
De uma forma global na área do turismo ainda se ganha mal. Os ex-alunos, profissionais altamente qualificados, numa fase inicial não ganham aquilo que deveriam ganhar. Poderá haver a excepção na área das cozinhas. Agora, atendendo ao crescimento que o turismo teve e às receitas que crescem dois dígitos em Portugal, os empresários poderiam pagar mais. E há aqui um factor que é determinante: devido à escassez de profissionais na área do turismo, quem não retiver os talentos arrisca-se a um dia destes não ter um serviço qualificado para prestar aos turistas e isso vai reflectir-se depois, não só na procura, como nas receitas também. As grandes cadeias percebem [LER_MAIS] perfeitamente a mais-valia que têm. Temos exemplo de alunos que foram estagiar para empresas e revolucionaram por completo a sua comunicação digital. Para nós, escolas, é motivo de orgulho porque percebemos que estamos a fazer um bom trabalho, não só na aplicação dos currículos, mas depois na formação. Estamos a colocar alunos nos melhores hotéis de Barcelona e são quase todos convidados a lá ficar. Isto é sinónimo que o trabalho que desenvolvemos é bom.
Em que se diferencia esta escola de outras de turismo do País?
Temos muito boas escolas em Portugal. Esta destaca-se por algumas razões e uma delas é o relacionamento entre professor e aluno que é excelente e isso é algo que os alunos valorizam. Depois a aplicabilidade prática que os cursos têm. Praticamente não existe nenhum professor na área do turismo que não tenha tido antes uma experiência profissional numa empresa. E na área da biologia e da engenharia alimentar todos fazem investigação aplicada, o que faz com que os alunos se motivem e procurem a escola para desenvolverem projectos futuros. Há outras valências, o surf, as praias, com as quais competimos. Temos muitas casas de segunda habitação em Peniche, pelo que para os alunos arranjarem quarto é extremamente fácil e a preços baixos. Isso compensa alguma falha que exista ao nível de oferta de serviços que não temos.
Quando terminar o mandato o que gostaria de ver concretizado?
Primeiro, os arranjos exteriores, algo importante e necessário até para a acessibilidade e como imagem da própria escola para o exterior. A escola cresceu em duas fases: uma em 2007 com o edifício pedagógico e depois com o acrescento com mais espaços pedagógicos em 2010 e o hotel escola, que tem 25 quartos e 50 camas disponíveis para alojamento, bar e cantina. A escola está projectada para 1750/1800 alunos e gostava que conseguisse crescer ainda mais. É importante não só para o Politécnico de Leiria, mas também para a região. Temos um mar imenso que está subaproveitado. Ainda não percebemos muito bem como é que o podemos potenciar. Ao nível da investigação temos feito trabalhos fantásticos e magníficos com as algas, criando novos produtos, como o pão de algas, o gin, o azeite ou o gelado. Daqui a quatro anos gostava que esta fosse não só a melhor escola de turismo a nível nacional, mas também uma das melhores nas ciências do mar.
O Cetemares tem revolucionado alguns produtos na área alimentar. Com as alterações climáticas, a investigação é pensada em dar res- posta ao que poderá faltar no futuro?
Temos em conta a sustentabilidade em tudo o que é formação, estratégia e desenvolvimento. Todos os produtos que utilizamos estão subaproveitados e eram considerados desperdício. Por exemplo, o caranguejo pilado era mandado fora pelos pescadores e tem um potencial enorme que pode ter aplicabilidade ao nível da saúde e da cosmética. Procuramos perceber que produtos é que existem que possamos não só acrescentar valor mas também potenciar, com inovação, para outras áreas para além daquelas que até agora eram utilizadas. Procurámos confeccionar a cavala de diferente forma e neste momento este peixe pode estar nos melhores banquetes ao nível nacional, não só como entrada mas também como prato principal ou em conservas. Há determinadas espécies que não têm escala e temos que a procurar através da aquacultura.
Verifica-se uma aposta no turismo da Região Centro. Que estratégia tem de ser tomada para que as pessoas não fiquem apenas por Fátima?
Tem que haver uma oferta organizada e muito bem comunicada. É preciso intervir com os operadores turísticos para que os turistas não fiquem apenas nos grandes centros. Hoje já há muitos circuitos que permitem que os turistas fiquem na região centro, que tem 100 municípios. Se estes 100 conseguirem comunicar tudo aquilo que têm não tenho dúvidas que as pessoas vão ficar mais tempo. Até aqui houve um problema de comunicação. Aliás, esse é um problema cultural. Nós produzimos muito bem mas ainda comunicamos menos bem. Temos que melhorar muito isto de forma a que as pessoas fiquem e consumam. Este ano vamos receber 17 milhões de turistas, basta que cada um deles gaste um euro a mais para aumentarmos as receitas em 17 milhões de euros.










