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Home Entrevista

Lara Seixo Rodrigues: “O interesse da sociedade portuguesa pela cultura e pelas artes é muito reduzido”

Lara Seixo Rodrigues: "O interesse da sociedade portuguesa pela cultura e pelas artes é muito reduzido" . A directora artística da plataforma Mistaker Maker, que organiza há cinco edições o festival de street art Fazunchar, em Figueiró dos Vinhos, fala do desafio de trabalhar e enriquecer as comunidades locais pelas artes

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
27 de Agosto de 2023
em Entrevista
Lara Seixo Rodrigues

Lara Seixo Rodrigues (Foto: Fotografia: Ricardo Graça)

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Numa entrevista à revista Shifter, disse que a arte não faz sentido se não possuir uma lógica comunitária…
Disse que, para mim, não faz. É a minha forma de trabalhar. É o cuidar do outro, do olhar para o outro, sou, talvez, a antítese de um artista no sentido mais clássico do ego que tem de ser alimentado e que se foca “naquilo que eu penso, o que eu faço, o que eu quero fazer, a minha ideia, o meu conceito”. Quando estou a desenhar um projecto, imagino sempre como vai ter impacto na vida de alguém, naquela rua, naquela cidade, naquela comunidade com quem estou a trabalhar. Quando envolvemos a comunidade na construção de algo, e, por vezes, as pessoas nem sequer percebem que estão a ser envolvidas, há um sentido colectivo. Por exemplo, no festival de arte urbana Fazunchar, em Figueiró dos Vinhos, aquilo que perdura no espaço e no tempo são os murais. É um património comum que deixa de ser do artista e passa a ser da comunidade e território. Há 12 anos, quando comecei a trabalhar na área, isto era uma suspeita e uma intenção que eu tinha. Hoje, foi claramente confirmado. Por exemplo, no ano passado na edição do festival Wool, na Covilhã, tivemos de renovar duas paredes com murais e houve contestação, porque “as paredes eram da comunidade e vocês não podiam limpar e mudá-las sem nos pedir e sem nos avisar”. Apesar da contestação foi positivo. Seria estranho, não haver reacções, o que indicaria que o trabalho que queríamos que as pessoas assumissem como seu não estava a resultar. Não digo que 100% daquilo que fazemos tenha este carácter, porque também fazemos muito trabalho relacionado com marcas. Apesar de considerar que projectos, como o Fazunchar ou o Wool, são marcas territoriais. 

As residências artísticas em Figueiró dos Vinhos fazem lembrar os tempos passados, quando Malhoa trazia os amigos e o Grupo do Leão para pintar, inspirar-se e descansar. O Fazunchar faz reviver esse tempo? 
Apesar de aqui, em Figueiró, tudo é uma grande residência. Até a execução dos murais. Os artistas estão aqui a criar e, outras vezes, já trazem coisas que necessitam de ser complementadas e, para isso, tem de haver uma leitura do território. No Fazunchar, este ano, somos 16, é uma equipa menor, mas almoçamos juntos, jantamos juntos e acaba por ser uma irmandade que se forma e que permite feedback dos artistas. Vivemos aqui em comunidade e cada um trabalha na sua área. Ainda ontem, ao jantar ficámos à conversa, e eles diziam que estavam a adorar. A Giuliane Sampaio, especialista em lettering, dizia estar a adorar perceber o processo da Ana Lua Caiano, que faz recolha de sons… eles contaminam-se uns aos outros. Os dois dias iniciais no Fazunchar são de reconhecimento do território e da comunidade que está aqui dentro e de muitas outras coisas, como a história de Malhoa, do Grupo do Leão e o reconhecimento do trabalho que já foi feito. Começamos por falar da história, fazemos uma visita pela vila, falo do Simões de Almeida tio, que foi o responsável por trazer Malhoa para Figueiró, falo do sobrinho, que é um dos maiores escultores portugueses, responsável pela escultura da República, que está no parlamento. Vamos às fragas, vamos passear, vamos a banhos, e tudo isto é, não só um reconhecimento do território, mas um compromisso informal que eles firmam. Quando damos a conhecer o território aos artistas, a sua responsabilidade e compromisso com o território é muito maior, porque conhecem as pessoas para quem estão a trabalhar, e começam a reconhecer as ruas, a história, e sabem que também têm aqui um papel importante. A responsabilidade com que fazem, durante o Fazunchar, o seu trabalho é completamente diferente da que seria se fosse um festival onde chegassem, fizessem e fossem embora. Vamos na 5.ª edição, e quem esteve connosco na 1.ª, na 2.ª, na 3.ª e na 4.ª, diz-nos que tem um carinho especial por Figueiró dos Vinhos, e isto vem de ser uma grande residência, numa vila cuja escala permite que andemos a pé de um lado para o outro e que estejamos em casa. 

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