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Mecenato: Alcobaça ganha museu com 800 anos de barro e faiança

O mais recente museu municipal de Alcobaça convida a uma viagem pela identidade cerâmica do concelho, da escultura em terracota de matriz religiosa às manufacturas dos últimos três séculos

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
28 de Maio de 2026
em Viver
Percurso museológico faz-se dos monges barristas à premiada cerâmica contemporânea
Percurso museológico faz-se dos monges barristas à premiada cerâmica contemporânea
Percurso museológico faz-se dos monges barristas à premiada cerâmica contemporânea
Percurso museológico faz-se dos monges barristas à premiada cerâmica contemporânea
Percurso museológico faz-se dos monges barristas à premiada cerâmica contemporânea
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Faiança conventual, peças seiscentistas e a senda industrial dos últimos dois séculos compõem o acervo do Museu de Cerâmica de Alcobaça – Colecção Maria do Céu e Luís Pereira de Sampaio, que reabre portas durante o mês de Junho, agora sob tutela do município.

A exposição permanente transforma a visita numa viagem pela identidade material de Alcobaça: da cerâmica conventual de matriz religiosa às manufacturas dos séculos XIX, XX e XXI, com paragem nas peças seiscentistas que marcam a transição para a produção mais profana e quotidiana.

Logo à entrada do espaço, em jeito de introdução, poderão ser admiradas antigas esculturas em terracota atribuídas aos “monges barristas” do Mosteiro de Alcobaça, além de fragmentos adquiridos a um elemento de uma família que habitou na ala Sul do mosteiro local, nas décadas de 40 e 50, do século passado.

A responsabilidade técnica de integrar o acervo na rede museológica local cabe ao museólogo municipal Alberto Guerreiro.

O desafio, explica, passou por criar uma narrativa que atravessa os séculos, começando por fragmentos que recuam quase à Fundação e às esculturas em terracota dos monges cistercienses.

“Faz-se esse contexto mais antigo, de que a cerâmica, em Alcobaça, não começou no século XIX, mas teve um passado ligado aos monges”, afirma o técnico.

O núcleo central, contudo, foca-se na “explosão industrial” iniciada em 1875 com a oficina de José dos Reis, ceramista vindo de Coimbra, traçando-se, depois, a linhagem da família da Bernarda, que deu origem a grandes fábricas como a Raul da Bernarda e a Olaria de Alcobaça.

Alberto Guerreiro recorda o período áureo, em que “chegou a haver mais de 100 fábricas” e unidades familiares.

Para lá da galeria de peças artísticas, apresenta-se o pulsar de uma identidade industrial local e artística que moldou gerações.

O percurso museográfico destaca ainda a evolução técnica, da pintura manual até à introdução de métodos como a estampa, o carimbo e o stencil nos anos 60 do século XX.

O museu resulta de uma doação de Jorge Pereira de Sampaio, historiador e antigo director do Mosteiro de Alcobaça, que cedeu ao município um espólio de 2.300 peças, retirado da colecção iniciada pelos seus pais, Maria do Céu e Luís Pereira de Sampaio, em 1953, e que evoluiu, após a morte do pai, para espaço expositivo, ainda sob a alçada da família Pereira de Sampaio.

A colecção é descrita pelo doador como “democrática”, alternando peças de elevado valor artístico pintadas à mão com itens decorativos das décadas de 40 a 80, incluindo peças de estilo kitsch que marcaram a produção industrial da época.

Sampaio, cuja formação académica se focou na História da Arte e passou por um mestrado com dissertação sobre a Real Fábrica do Juncal e, mais tarde, pelo doutoramento com tese focada na arte portuguesa do século XVI, explica que era essencial incluir essas peças, fundamentais para a subsistência da população operária local, sendo que algumas são o único testemunho de unidades já desaparecidas.

O espólio inclui exemplares de fábricas que hoje trabalham design moderno, como a Arfai, a Claraval, a Jomazé ou a São Bernardo PP&A, entre outras.

Além das peças e das reservas, Jorge Pereira de Sampaio entregou à gestão autárquica o imóvel, onde também se situava a Galeria Conventual, e o mobiliário de exposição.

O historiador diz que a reabertura do espaço é uma espécie de homenagem aos progenitores, em especial ao pai, Luís Pereira de Sampaio, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento. Sente assim que a oferta a Alcobaça do espólio foi um processo natural. “Nasci com a partilha no sangue”, afirma.

Alma da terra

A transição para a gestão da Câmara de Alcobaça marca o início de uma nova era para o espaço, e a vereadora da Cultura, Ana Paula Rodrigues Malojo, sublinha a importância estratégica desta mudança.

“Pretendemos que a cerâmica seja um elemento identitário do concelho.”

A meta principal da autarquia é garantir que o museu seja “visitável em permanência”, quebrando o ciclo de aberturas pontuais e integrando-o em eventos dinâmicos e exposições que possam circular por outros locais no concelho.

Haverá roteiros guiados e conteúdos bilingues integrados na rede museológica local, para atrair alguns dos milhares de turistas que já se deslocam à cidade para visitar o Mosteiro de Alcobaça.

Para quem desejar adquirir recordações, estará em funcionamento uma loja adjacente ao museu, no espaço da antiga Galeria Conventual, que resulta de uma parceria entre o mecenas Jorge Pereira de Sampaio, a Associação de Defesa e Valorização do Património Cultural da Região de Alcobaça e fábricas locais, possibilitando a aquisição de artigos da produção da região.

“Cedemos a loja para que se possa divulgar a cerâmica de Alcobaça e para que os visitantes possam ter acesso às peças que, hoje, se produzem”, diz Jorge Pereira de Sampaio.

E o novo museu já suscita interesse antes mesmo da sua reinauguração. “Já temos visitas marcadas. A cerâmica é muito atractiva e esta cerâmica decorativa tem muita procura”, conta Ana Paula Malojo.

Talvez por isso, a visão para o futuro seja já de expansão. Jorge Pereira de Sampaio admite a possibilidade de futuras doações de outros acervos seus, como chitas de Alcobaça e gravuras.

Texto editado a 29/05/2025, para actualizar a descrição do espólio

Tópicos: alcobaçadoaçãojorge pereira de sampaioLeirialouça medievalMosteiro de AlcobaçaMuseu da Cerâmicamuseu de alcobaça
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