
Há marcas que não se veem no cimento estalado das casas, nem nas telhas que a tempestade Kristin violentamente arrancou naquela madrugada fria de janeiro. Meses depois, a reconstrução da cidade de Leiria faz-se ao ritmo das obras, mas paira no ar a perceção de que algo mudou na infraestrutura invisível da cidade: a alegria da sua gente.
Nas semanas que se seguiram ao 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, a literatura médica registou um fenómeno tão devastador quanto a destruição física. Milhares de nova-iorquinos foram assaltados por uma ansiedade sufocante. O som de uma sirene ou o ruído de um avião tornaram-se gatilhos de pânico. Guardadas as devidas proporções, talvez se sinta hoje em Leiria o eco de uma angústia semelhante. A tempestade Kristin poderá ter abalado a ilusão de segurança do nosso espaço, deixando um rasto de stress pós-traumático que, embora invisível, pesa no nosso quotidiano.
À medida que o outono se aproxima e as noites crescem, parece que se vai instalando no ar uma crescente apreensão. Acredito que o regresso do primeiro inverno pós-Kristin começará a ser vivido não apenas como uma mudança de estação, mas como uma sombra de incerteza. Para muitos leirienses, principalmente as crianças, o som mais forte da chuva nas janelas ou o uivar do vento na calada da noite bastarão para despertar memórias daquela madrugada escura.
Mas se a comunidade soube reagir de imediato nas ruas, mostrando a verdadeira força que nos caracteriza, sobressai no ar a sensação de um abandono amargo. A dimensão da catástrofe que atingiu o nosso território merecia uma resposta pública à altura — rápida, musculada e empenhada. Em vez disso, fica a amarga perceção de que o governo não olhou para o drama de Leiria com a gravidade e a responsabilidade que lhe competiam, tratando uma tragédia local com uma ligeireza quase distante.
Não dar a devida importância ao impacto psicológico e material de uma catástrofe desta escala é um erro grave de quem devia proteger e cuidar. Leiria não precisa de compaixão proforma, mas de uma ação decisiva. Enquanto o poder central continuar a assobiar para o lado perante a cicatriz invisível que aqui ficou, caberá aos leirienses exigir a dignidade e o respeito que a sua terra merece — garantindo que a sua voz não será apagada por nenhuma tempestade, nem pelo esquecimento de quem governa. Que o medo e a ansiedade não nos tirem a alegria de vivermos a nossa cidade como ela merece e sempre nos habituou.






