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O bullying está vivo, mas não se recomenda

Ali, enquanto jovem professor estagiário, percebi que o preconceito é o combustível predileto do agressor e que a integração de quem vem de fora é, muitas vezes, um caminho minado.

Miguel Bilhota Xavier, professor e presidente da InPulsar Miguel Bilhota Xavier, professor e presidente da InPulsar
26 de Março de 2026
em Opinião
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Miguel Bilhota Xavier, professor e presidente da InPulsar
Miguel Bilhota Xavier, professor e presidente da InPulsar26 de Março de 2026

A palavra tem origem no inglês bully, que no século XVI significava “querido” ou “amigo”, mas que, por uma ironia cruel da evolução linguística, derivou para “valentão” ou “opressor”. Hoje, o bullying é uma patologia social que se alimenta do silêncio e da indiferença. E, ao contrário do que alguns saudosistas apregoam, não é um “rito de passagem” ou “coisa de miúdos”. É uma infelicidade proibida que rouba o futuro e a dignidade.

Talvez a minha primeira confrontação direta com este fenómeno tenha acontecido em 2008, durante um dos meus estágios. Recordo-me perfeitamente de uma aluna brasileira que chegou à turma já com o ano letivo em curso. A sua “culpa”, aos olhos dos pares, era a forma de falar e a roupa que não seguia os padrões de quem já ali estava. A pressão era diária, subtil mas constante, até ao dia em que o peso se tornou insuportável e ela decidiu falar com a professora. Ali, enquanto jovem professor estagiário, percebi que o preconceito é o combustível predileto do agressor e que a integração de quem vem de fora é, muitas vezes, um caminho minado.

Poderíamos pensar que, passados quase vinte anos, a escola teria evoluído. Contudo, os relatos que chegam de algumas instituições de ensino revelam uma violência que nos devia fazer corar de vergonha. Soube, recentemente, de um jovem do 8.º ano, que frequentava uma instituição de prestígio, e que viveu um autêntico pesadelo: foi fechado numa casa de banho e agredido por vários colegas. Entre os golpes, ouvia insultos diários dirigidos à mãe e ataques à sua identidade familiar: “És adotado porque os teus pais não são nada parecidos contigo”. O desfecho desta história foi a fuga: a vítima teve de mudar de escola. Mais uma vez, o sistema falhou ao permitir que o agredido fosse o exilado, enquanto os agressores permaneceram no seu feudo de impunidade.

O preconceito, infelizmente, não escolhe idades nem estratos sociais. Ouvir um jovem dizer à irmã mais nova que “não podes brincar com a Cesária porque ela é preta” é a prova de que o racismo e a exclusão são sementes plantadas cedo, muitas vezes no seio familiar, e que florescem sem filtro nos recreios.

Isto acontece muito mais vezes do que possamos imaginar. A escola e os seus agentes principais — professores e alunos — têm de trabalhar em conjunto e de forma incessante. Não basta ter um “plano de prevenção” burocrático. É fundamental detetar o olhar de medo num corredor e resolver este problema crónico que empurra crianças para o desespero e tristeza total.

O bullying está vivo, alimenta-se da nossa distração e não se recomenda a ninguém. Estejamos todos — pais, educadores e cidadãos — muito mais atentos. A escola deve ser o lugar da segurança, nunca o palco de uma tortura consentida. Façamos, cada um de nós, a nossa parte.

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